Livros Lidos de 2023

Repetindo a fórmula vencedora do ano passado, aqui fica, em modo resumo de um parágrafo para os preferidos, a lista dos livros que li em 2023. Continuo muito inspirada nos autores de lugares por onde passo nas minhas viagens, mas este ano li também mais autoras portuguesas, de quem gosto muito.

Mais uma vez, dentro de cada categoria, estão listados aleatoriamente, sem ordem cronológica ou de preferência. 

Os preferidos:

O Dever de Deslumbrar; Filipa Martins

Uma biografia de Natália Correia, escrita com imensa sensibilidade e respeitando todas as contradições inerentes à personalidade desta mulher impressionante. É um tijolo (apenas em volume, não em densidade de leitura) com imenso contexto histórico, extremamente bem documentado e que me deixou com saudades de uma “personagem” de carne e osso, que gostava muito de ter conhecido.

A História de Roma; Joana Bertholo

É livro de viagens, é uma história de desencontros afectivos e é uma reflexão sobre a escolha, no feminino, de não ter filhos. Gosto muito da Joana, pessoalmente e como escritora. Lê-la é sempre uma descoberta. (O Ecologia é o meu livro preferido dela.)

Jorasanko; Aruna Chakravarti e Daughters of Jorasanko; Aruna Chakravarti

Dois livros da mesma autora, que relatam a história da casa da família Tagore (Jorasanko), desde a perspectiva das várias gerações de mulheres que a habitaram. Conta também a vida de Rabindranath Tagore, Nobel da literatura em 1913, e através destes “personagens”, a história da chamada Renascença Bengali, muito promovida e influenciada pela família. Escritos numa linguagem poética, mas muito contida, são daqueles livros que deixam saudades quando acabam. Comprei ambos numa livraria em Calcutá, com seis meses de intervalo entre um e outro e acho que voltarei a eles, para os ler de seguida.

Libano, Labirinto; Alexandra Lucas Coelho

Nunca li nada da Alexandra Lucas Coelho que não gostasse e este livro não foi excepção. Difícil de definir (é reportagem, são crónicas, é literatura de viagem?), anda para a frente e para trás no tempo, com histórias sobre e no Líbano e sobre os libaneses. São momentos vividos pela autora nas suas muitas viagens ao país, complementadas pelo seu enorme conhecimento histórico e sensibilidade literária (e arrisco dizer humana).

Eliete: Vida Normal; Dulce Maria Cardoso

Se pegarmos “apenas” na estória deste livro, podemos confundi-lo com um romance barato de cordel. Só que a escrita de Dulce Maria Cardoso não deixa em momento nenhum que assim seja. A “vida normal” de Eliete nas suas palavras converte a banalidade em filosofia, ao mesmo tempo que nos deixa agarradas ao que lhe vai reservando o presente enquanto se transforma em futuro.

Delhi, A Soliloquy; M.Mukundan

A premissa do livro é acompanhar a vida de imigrantes Malayali (do sul da Índia) na cidade de Delhi, ao longo de 40 anos que começam nos anos 60. Com isto, acompanhamos também a história da cidade (e do país). E essa história é um murro no estômago, contado sem paninhos quentes. Apesar de ser uma ficção, passei meio livro com um nó na garganta à medida que os personagens morriam assassinados, em tumultos vários, pelos seus vizinhos ou pela polícia. Porque tudo aquilo aconteceu exactamente assim. A guerra Indo-Paquistanesa, os refugiados do Bangladesh, a Emergência e as esterilizações forçadas, os tumultos anti-Sikh. É duro, mas está muito bem escrito. As mais de 500 páginas voam.

Vida e Andanças de Alexis Zorba; Nikos Kazantzakis

Mais conhecido como Zorba, o Grego por causa do filme nele inspirado. Alexis Zorba é um personagem apaixonante e irritante. Ao mesmo tempo, um doce e uma besta. Tem de se ler o livro à luz da sua época (como todos) para deixar passar a misoginia e o machismo paternalista que transparecem, mas, à parte isso, é intemporal. Fala do sentido da vida, do amor, da amizade e da busca incessante por algo sempre inalcançável que caracteriza os espíritos irrequietos. E fala da Grécia, de uma Grécia, onde quem lá esteve se consegue reconhecer naquelas paisagens e cheiros, ainda que com décadas de distância. Fiquei com muita vontade de ler mais coisas do autor.

Vivir para Contarla; Gabriel Garcia Marquez

A vida de Gabo contada por Gabo. Uma auto-biografia parcial que só peca por curta. Acaba com ele a voar para Paris, ainda nos seus vinte e poucos anos, antes do exílio, muito antes do Nobel, antes de muitos livros. Mas conta a génese de tudo isso e a enorme influência desses anos duros e loucos entre Barranquilha, Cartagena e Bogotá e como a Aracataca dos seus avós levou à Macondo que todos conhecem.

Auto-Biografia Não Autorizada; Dulce Maria Cardoso

Uma auto-biografia construída pelas crónicas que a escritora fez para a Visão. Não cronológica, com lacunas temporais, às vezes focada em detalhes ínfimos. Como são as memórias, no fundo. Notam-se dois grandes temas, o retorno de Angola e a vida lá, e a pandemia. Aprende-se muito com o primeiro e identifiquei-me muito com os sentimentos do segundo. Li o livro em três dias, entre o Natal e ano novo.

Os outros:

Repito-me, face ao ano passado, mas é verdade que também gostei de todos estes, só não me tocaram tanto como os anteriores. Tenho escolhido bem. Mais uma vez, poderia recomendar qualquer um deles, dependendo da situação.

Palomar; Italo Calvino

Versículos Satânicos; Salman Rushdie

Natureza Urbana; Joana Bertholo

Serenity; Elias Venezis

Estaba la Pájara Pinta Sentada en el Verde Limón; Alba Lucia Angel

Andanças com Heródoto; Ryszard Kapucsinski

Thamel, Dark Star of Kathmandu; Rabi Thapa

The Other Alexander; Margarita Liberaki (talvez o que gostei menos de todos. É um livro pequeno, mas denso e dificil de entrar)

Best-Seller; Mami Pereira

Fire From Heaven; Mary Renaud (foi um dos favoritos do ano passado, que reli antes de ler o terceiro volume desta trilogia)

Funeral Games; Mary Renaud (a trilogia toda é espectacular. Este é o terceiro volume, já depois da morte de Alexandre O Grande e foi o que gostei menos dos três, mas ainda assim gostei bastante.)

A Viagem do Elefante; José Saramago

The Ancient Greeks for Dummies; Stephen Batchelor

A Mulher do Dragão Vermelho; José Rodrigues dos Santos (foi uma prenda que gostei bastante mais do que estava à espera)

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