Disseram-me que bastavam duas horas para ver Barichara. Quatro, vá, se quisesse fazer o caminho a Guane. Decidi ir dois dias. Queria calma e tempo. Queria precaver as enchentes dos que tomam este conselho e enchem a vila naquela janela que compreende as fotos das e nas suas ruas empinadas, os miradouros sobre a Garganta do Rio Suarez, talvez uma visita às oficinas de artesanato. Tudo com vestidos compridos e chapéus que se agarram em milhares de fotos todas iguais. Eu, queria sentir o nascer do sol sobre as montanhas circundantes com um café acabado de fazer a fumegar nas mãos, percorrer as ruas ao anoitecer com candeeiros amarelos a iluminar apenas o suficiente para a magia. Queria andar pelas ruas ao amanhecer, ver as rotinas de quem cá vive, chegar aos miradouros vazios e babar com as nuvens em rolo agarradas às vertentes verdes escarpadas. Queria percorrer o caminho real sem ninguém, só eu e os mil pássaros de todas as cores e tamanhos.

Cheguei numa sexta depois de almoço. Havia movimento, mas apenas o suficiente para que fosse uma aldeia com vida. Caminhei sem rumo, maravilhada com a pedra vermelha, as vistas, os muros floridos em torno de casas com varandas de madeira. Barichara já estava na minha lista há muito tempo, mas fui adiando com medo do cliché. Votada “pueblo más lindo de Colombia”, podia cair da armadilha de ser só mais um isco para o turismo. Tem-no, mas soube manter-se fiel às origens de aldeia rural e de artesãos, empinada na cordilheira andina, vigiando camadas e camadas de verde e rocha.

Está classificada como Monumento Nacional desde 1978 e as casas, tradicionalmente de adobe, pintadas de branco, com portas e janelas coloridas, fazem lembrar Salento, mas menos folclóricas, mais suaves e arredondadas. Provavelmente pelo trabalho do adobe, em vez da madeira.

Subi e desci ruas empinadas, entrei na igreja de la Inmaculada Concepción, localizei o começo do Caminho Real e terminei o dia a jantar numa varanda virada para a Garganta do Rio Suarez. Enquanto bebia uma Club Colombia, o sol punha-se atrás das montanhas, as nuvens eram fiapos e rolos presos entre as vertentes, a mudar de branco para amarelo, de amarelo para rosa.

Acordei antes do nascer do sol. Ainda não eram 5.30h e já estava sentada no alpendre do hostel. Já havia café a fazer quando cheguei. A taça aquecia-me as mãos enquanto ouvia mil pássaros e o zumbir de polinizadores vários nas flores roxas da trepadeira. Já havia luz, mas o sol ainda se escondia atrás das montanhas. Sentada, sobre os telhados circundantes, vi o sol sair e as nuvens passar do cinzento ao laranja, com todas as cores que cabem pelo meio.

Cacarejavam galinhas, cães ladravam e começava a sentir-se movimento nas ruas. À medida que os verdes ficavam mais brilhantes e eu continuava sentada naquela poltrona, congratulei-me pela decisão de calma na exploração. Foi sentimento que me acompanhou nos dois dias.
Antes de entrar no Caminho Real, voltei ao miradouro para a Garganta do Rio Suarez. Na luz límpida das sete da manhã, os tufos de nuvens e a ondulação verde dos declives montanhosos pareciam pinturas. Demasiado nítidos. Demasiado perfeitos. Mas tudo real, tudo certo. Privilégios do pássaro matinal desperto.

O trilho começa apertado e em ziguezague montanha abaixo. Amaldiçoei a escolha de calções enquanto as ervas altas carregadas de orvalho me molhavam as pernas. Depois dessa primeira parte empinada, o caminho é quase sempre largo, quase sempre a direito, com ligeiras inclinações, mas quase sempre a descer, neste sentido. Fui em direcção a Guane, a cinco quilómetros. A história deste caminho recua séculos, até ao povo pré-colombiano que habitava esta zona, os Guanes. Deslocando-se a pé entre os vários assentamentos indígenas, marcaram caminhos pelas montanhas que foram mais tarde aproveitados pelos espanhóis durante a conquista e na ligação entre povoações, antes do aparecimento das estradas. Pensa-se que este caminho, baptizado de real pelos espanhóis, atravessava o departamento de Santander estendendo-se de Bogotá a Barrancabermeja, passando por várias aldeias pelo caminho. Barichara e Guane são duas delas. No século XIX, Geo Von Lengerke, um empresário e engenheiro alemão emigrado nesta região desde 1850 e encarregado de construir várias pontes e caminhos, renovou estes trilhos antigos, já meio-abandonados, para permitir a circulação de cavalos e carros de mulas e melhorar as trocas comerciais.


Àquela hora, caminhei quase sempre à sombra, com bolsas de sol pontuais e o lado oposto do vale iluminado. Chegada a zona plana, muita pedra. As do chão, obra do alemão, as dos muros, que delimitam propriedades e ladeiam grande parte do caminho, e pedregulhos espalhados, quando não há muros. Tanto verde. O das árvores, o da erva do pasto, o dos arbustos entre os muros, o das ervas que brotam entre as pedras, às vezes fazendo tapetes verdes que as cobrem totalmente.




Fiz o caminho quase todo sozinha. Cruzei-me apenas com um rapaz que seguia com muita calma, de máquina fotográfica em punho. Desconfio que para fotografar os pássaros. Pudera. Que concerto! Piares, cantares, grasnares, cacarejares, chilreares, assobiares, crocitares, arrulhares, trinares em decibéis vários e toda a escala. Que variedade de cores, formas, penachos, bicos, penas, tamanhos. Quando parava e ficava só quieta a ouvir, o silêncio encorajava-os a saltar de árvore em árvore. As cores! Já tinha falado nas cores?
Os cinco quilómetros fazem-se facilmente, em hora e meia. Mais, consoante as paragens de deslumbre. Demorei duas horas. Ao chegar a Guane, havia festa. Três das seis ruas da aldeia estavam engalanadas com bandeiras e havia música num palco montado no jardim em frente à igreja.

Num dos lados dessa praça, três banquinhas com carne de cabra a assar e panelões de cobre com batatas, yuca, milho e porco. Pequenos-almoços campesinos de festa. Segui uma das ruas até ao fim e desemboquei num miradouro para a garganta, onde o rio Suarez se via mais perto que em Barichara. À minha frente, um abutre que desconfio condor, rodopiava numa térmica mesmo em frente aos meus olhos.

Guane é uma Barichara mais pequena e mais rústica. Três das ruas têm as mesmas pedras grandes e redondas do caminho real, as outras são de terra batida. Em torno da praça principal, onde está a igreja, distribuem-se três ou quatro pequenos restaurantes, uma loja de conveniência que também é bar e café, duas lojas de artesanato e o Museu de Guane. Entrei. O museu são duas salas, que se visitam com acompanhamento, o que ajuda muito a destrinçar a confusão de objectos que por lá se espalham. Esperámos 10 minutos, a ver se aparecia mais alguém, mas acabei por ter a guia só para mim. A primeira sala mostra a evolução geológica da região, com vários fósseis e amostras de rochas e solo. A segunda, a evolução humana, dos povos indígenas aos espanhóis e crioulos/colombianos. Há de tudo, de amostras de tecido com centenas de anos a máquinas de escrever e telefones do início do século XX, passando por quadros e genealogias várias. O mais interessante foi perceber alguns dos hábitos dos Guanes, erradicados pelos espanhóis em 1800. Aprendi, por exemplo, que faziam trocas comerciais com os Muiscas da sábana de Bogotá, mas eram povos diferentes. Que estavam distribuídos por todo o território do que é hoje o departamento de Santander, em agrupamentos com características distintas consoante a região e que comunicavam através de pinturas rupestres. Faziam modelação dos crânios dos homens, usando cintas e capacetes com formas diferentes, desde crianças. A forma estava relacionada com o agrupamento a que pertenciam. Tinham rituais de sacrifícios animais e, em alturas mais difíceis, também humanos. Já faziam tecidos a partir do fique, uma planta carnuda, tradicionais desta zona até hoje.
Saí do museu e comprei um gelado. Ainda não eram 11 da manhã e o sol já picava. Fui até à esquina da praça de onde partem as busetas para Barichara, uma a cada hora e meia, e percebi que, sorte das sortes, saía em 10 minutos. A estrada, subindo em curva e contracurva, vai-se cruzando com o Caminho Real que fizera pouco antes. No pequeno autocarro, íamos eu, duas turistas colombianas, e quatro adolescentes que, percebi, iam para a escola em Barichara. Pelo caminho, em várias paragens não oficiais, sinalizadas por um grito de dentro do autocarro ou um estender de mão à beira da estrada (tão típicas das zonas rurais colombianas), entraram e saíram campesinos vários.
Ao chegar a Barichara senti um baque. A tranquilidade e silêncio com que a deixara haviam três horas tinham desaparecido. Gente por todo o lado, tuk-tuks e chivas (miniautocarros coloridos, que eram tradicionalmente de carga) às dezenas, às voltas por ruas que só ganham com o passeio a pé. O ruído abafava os pássaros até aí tão presentes. Entrei numa livraria-café, num canto da praça principal. Silêncio. Não estava quase ninguém e um dos empregados fez-me um mini-tour pelas prateleiras, explicando a originalidade da catalogação dos livros. Por emoções. Livros para rir, para a melancolia, para aprender, para sorrir, para nos apaixonarmos, para a tristeza, para assustar e por aí em diante. Dificultava as procuras, mas estimulava a conversa e a imaginação na Aljibe, a primeira, e única, livraria de Barichara e num raio de 100km.

Comprei um livro e sentei-me a beber um café. Foi entrando e saindo gente, muitos apenas a espreitar o espaço, alojado numa casa colonial, com bonitas janelas para a praça, e a tirar fotos rapidamente.
Enquanto via o remoinho de pessoas lá fora, pensava em tudo o que sentira no dia anterior e essa manhã. Repito muitas vezes que me sinto a melhor versão de mim quando viajo. Porque me sinto mais empática, mais tolerante, mais virada para fora, para o que me rodeia, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, mais introspectiva, mais perto de mim. Então, pensava na viajante que quero continuar a ser, como alguém que testemunha o mundo. Que observa, regista, vive, emociona-se com o mundo e com as pessoas. Todas as pessoas. Com a humanidade, com todas as suas nuances. A viajante com noção do privilégio, com responsabilidade, com assombro, sempre. A viajante como testemunha de paisagens e saberes ancestrais, como sua divulgadora, humilde e responsavelmente. Hoje em dia e cada vez mais, a viagem parece ser só sobre o viajante, não neste sentido de responsabilidade e testemunho, mas no narcisismo da imagem. O viajante no lugar. O viajante com os locais. As redes sociais, a “criação de conteúdo”, que quase sempre só vende a imagem da pessoa que vende, promovem este olhar umbilical. O resto é paisagem, muita vezes até copiada de posts anteriores.
Àquela hora, na tal janela das “duas horas suficientes” para ver Barichara, era isso que via. As mesmas duas ou três ruas famosas com gente a fazer fila para tirar a mesma foto a segurar os mesmos chapéus, com variações do mesmo vestido.

Os miradouros com filas de tuk-tuks com gente que não dá três passos, mas faz posts a “amar a natureza”, a “sentir a magia das montanhas”. Os restaurantes cheios, as ruas em que é possível a circulação automóvel, entupidas de carros. Não ajudava que fosse fim-de-semana prolongado, mas aquilo era impossível. Aproveitando ser cedo e estar sozinha, tentei uma mesa no restaurante Elvia, com sorte de apanhar o último cantinho. Não é o tipo de restaurante que se espera encontrar numa aldeia da Colômbia, e isso torna-o ainda mais especial. Sou muito fã de tascas típicas, mas quando não se come carne e se viaja muito tempo na Colômbia, o patacon com arroz, feijão e abacate, quase sempre insossos, acabam por fartar. Durante anos achei que não se fazia nada de especial com a comida típica colombiana, mas restaurantes como este, vêm mostrar que é possível. Trabalham com ingredientes e receitas locais reinventadas, com imaginação e qualidade. Comi truta com verdes diversos em várias texturas e, raríssimo na Colômbia (pão à refeição e pão de qualidade), têm um pão delicioso, servido com manteiga com pó das famosas formigas culonas da região. Foi das refeições mais caras, sem vinho, que fiz no país. Valeu todos os 18 €.

Saí do almoço mais pacificada com a confusão, mas recolhi ao meu quarto e ao alpendre sossegado e deixei-me ficar por ali a ler até ao fim da tarde. Por volta das 17h, antes que fechassem, fui visitar as oficinas de artesanato que mantêm e recuperam as tradições locais. Há as de trabalho do adobe, de fibras de fique para tecidos, malas e chapéus, do ferro e do papel. Entrei na do papel, localizada numa casa colonial, com um grande pátio traseiro onde mantém um pequeno jardim com amostras de várias plantas a partir das quais se pode fazer e tingir pasta de papel.

O ofício da manufactura do papel não é dos mais tradicionais da região. Foi uma ideia da Fundação San Lorenzo de Barichara para “reunir a comunidade de Barichara e seus arredores, atando os seus diversos conhecimentos, explorando materiais locais e honrando as tradições e conhecimentos de Santander sob o manto da botânica e da arte.” A partir das fibras do fique e do ananás, fazem artesanalmente papel, que é depois utilizado para cadernos e várias peças de artesanato como bijuteria e brinquedos, vendidos ali mesmo. As nove mães de família formadas e apoiadas pela fundação compõe o pessoal da oficina e, para além do trabalho de manufactura, fazem também workshops em escolas da região, para partilhar os seus conhecimentos. Na visita, acompanhamos ao vivo todo o processo de fabrico, explicado detalhadamente por uma das trabalhadoras. É incrível ver como as fibras duras da planta se transformam nas folhas resistentes, mas delicadas, daqueles papéis.


Voltei a pensar no papel do viajante, do turismo. Neste caso, como mais um apoio a comunidades em declínio. Nos cursos que fiz de turismo sustentável e turismo associado a iniciativas de rewilding, houve sempre um foco muito grande no papel positivo que o turismo pode ter em locais em desertificação populacional. Como a reestruturação de saberes ancestrais e a sua readaptação podem gerar novas oportunidades de negócio e trabalho e assim fixar ou atrair a população a zonas votadas ao abandono. Claro que tudo isto deve ser pensado e implementado de forma consciente e sustentável, sem sobrecarregar os ecossistemas, e sem que o turismo seja a única fonte de rendimento. Esta aposta de Barichara nos seus ofícios pareceu-me de louvar e apoiar.
Entretanto, tinha começado a chover. Decidi jantar e deitar-me cedo, para aproveitar de novo a madrugada, antes de me despedir de Barichara. As ruas fervilhavam de gente, havia reggaeton aos gritos de telemóveis, cafés e restaurantes, as esplanadas e alpendres apinhados. Encontrei um restaurante sossegado, muito devido ao cedo que era, e comi um arroz de vegetais. De sozinha fui passando a ser só mais uma cliente, à medida que a chuva piorava. Quando saí era o dilúvio. Ribombavam trovões e o céu clareava com os relâmpagos. As ruas empinadas, que tive de descer e atravessar para chegar ao hostel, eram rios. Sem alternativa, arregacei as calças e molhei os ténis. O bulício anterior recolhera todo aos interiores e a noite foi bem mais sossegada que o que havia temido.
Voltei ao alpendre e ao café acabado de fazer às 5.30h. Mal o dourado começou a cobrir os telhados, saí para a rua. Barichara parecia lavada da chuva e de gente. Nas ruas vazias, sol baixo, fazia alternarem sombras e reflexos, os muros e as plantas brilhavam nas gotas acumuladas do orvalho. As pedras polidas eram ainda mais amarelas e eu caminhava de sorriso parvo estampado na cara.

Saudei um senhor que passava com o seu chapéu de palha, galochas e machete à cintura, seguramente a caminho de algum campo de cultivo. Sorri a outro que passeava o seu cão. Numa esquina, duas vizinhas comentavam o temporal da noite anterior.

Caminhei até o Miradouro Salto del Mico, que tinha evitado no dia anterior, ao ver a fila de carros e pessoas a meio da tarde. Já fora da aldeia, fica voltado também para a Garganta do Rio Suarez, mas mais para sul de onde andara. O nome vem da cascata que daí se vê, acrescentando espectacularidade à paisagem pela qual já me tinha apaixonado. Àquela hora e depois da chuva, estava tudo ainda mais nítido que no dia anterior. Que bonito, tudo.

Que pena, se a imagem com que tivesse ficado de Barichara tivesse sido a da tarde anterior. Que importante a calma na viagem, a escolha das épocas e dos tempos, mais que dos lugares, não só para a nossa sanidade como visitantes, mas para não os sobrecarregar com a nossa presença, as nossas expectativas, a nossa bagagem. Que bom, despedir-me assim de Barichara.
(artigo publicado na edição de Abril de 2023 da Revista Volta ao Mundo)