Nas Ruas do 25 de Abril

Baixa e Terreiro do Paço – 14.00h

Desço a rua do Ouro e entro no Terreiro do Paço. Não fossem os vendedores de cravos, não usuais, e este pareceria um dia como os outros. Às 5.30 deste mesmo dia há 39 anos os homens da Escola Práctica de Infantaria desciam esta mesma rua. Às 5.50 tomavam o Banco de Portugal e às 6.00 o Terreiro do Paço com os seus ministérios. As ruas ainda não tinham muita gente. Aquela foi uma revolução planeada pelos militares, com o auxilio de apenas alguns civis.

O primeiro sinal terá sido dado ainda no dia anterior, às 22.55 com a canção “E depois do adeus”. Uma hora antes, depois de dias de preparação o Posto de Comando tinha sido estabelecido. Ao seu som são tomadas as primeiras posições dentro dos quarteis.

Às 00.20 é dado o 2º sinal, transmitido na Rádio Renascença. “Grândola Vila Morena” ficará para sempre associado não só a esta revolução. Será entoada até à exaustão ao longo dos anos como símbolo de resistência.

Hoje vejo lojas encerradas, outras abertas, turistas de máquina em punho, lisboetas em trânsito. Alguns, principalmente os mais velhos, falam sobre o dia que decorre, a maioria de trivialidades.

No Terreiro do Paço o sol encandeia. Há muita gente sentada nas esplanadas, muita mais foi até à praia. Ali, no inicio da R. do Arsenal eram 10 da manhã quando o Capitão Salgueiro Maia, figura incontornável do 25 de Abril, se interpôs entre os seus homens e os tanques das forças do regime. Levava um lenço branco na mão e recusou a ordem para ir para a retaguarda dos seu homens. O Brigadeiro deu ordem de disparo, ignorada por todos os homens. Mais tarde entregar-se-ão ao Movimento e passarão a fazer parte deste.

Hoje circulam livremente os eléctricos e autocarros, sente-se o habitual cheiro a bacalhau, passam mais e mais turistas…é um dia como os outros.

Volto a subir pela R. do Ouro, como o fizeram as colunas já reforçadas de militares que foram passando para o Movimento. Era meio dia quando chegaram ao Rossio. Esperava-os uma coluna que tinha sido enviada para os deter. Ao invés, juntam-se a eles. Hoje está um palco montado. Azul, com uma faixa “25 de Abril Sempre” e um cravo vermelho pintado. Está vazio por enquanto, com 3 microfones. Ouvem-se as musicas da época de uma coluna de som: Zeca Afonso (ainda não a “Grândola”) e José Mario Branco. Fico sempre com um nó na garganta ao ouvir este “Que força é essa amigo…”. passaram 39 anos e onde estamos? Conseguimos tanto, mas a que custo?  Estragámos o que se conseguiu, ou o que se conseguiu não é o que pensávamos ser?

 

Chiado – 15.00h

No Largo do Carmo há uma figura que reproduz o Salgueiro Maia, protegida por cordões. Está em frente aos portões do Quartel da GNR, onde esteve o verdadeiro à espera da rendição do presidente Marcelo Caetano. Aos portões circulam oficiais, cavalos, uma charrete. Há homens vestidos com fatos medievais, outros dos anos 50, oficiais com espadas, com pistolas, com espingardas, de verde, de azul de cinzento. Mistura-se o tempo e os tempos..

O Quartel está aberto ao público por um mês. Meio Abril e meio Maio, o tempo da revolução.

Nos corredores onde se esconderam os políticos da época está agora a história da GNR. Nas traseiras uma varanda que rivaliza com os melhores miradouros da cidade. Imagino que estivesse fechada nesse dia.

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No lado oposto, atravessando corredores de azulejos e divisões apalaçadas que revelam as suas origens como Convento chega-se à sala onde estava aquartelado o presidente, protegido por militares que tinham os seus companheiros do outro lado da janela.

Quando lá chego está “um” Salgueiro Maia à janela, espingarda na mão, cravo no cano da espingarda. Tenho um arrepio. É um personagem, um homem comum mascarado de outro homem que as circunstâncias fizeram extraordinário, mas o que simboliza é muito mais.

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Não sei se é de outra revolução como esta que precisamos. Não acho que tenhamos os mesmos militares, nem temos seguramente a mesma confiança neles. É preciso uma mudança, uma evolução, mas também é preciso isto. É preciso recordar, ensinar, manter viva a memória. Quem sabe até vir buscar a ela  força necessária para fazermos agora a nossa revolução, à nossa maneira.

 

Rossio – 16h

De novo no Rossio, já há guitarras no palco. Velhos e novos circulam, chegam as carrinhas da televisão, que me vai mostrar depois o que aqui se passou. Vão-se lembrar aqueles tempos e a actualidade da mensagem. Comparar o fascismo político daquela época, com a ditadura do capitalismo.

Este é o ponto final de uma marcha/manifestação demasiado associada aos partidos e centrais sindicais. São eles que, publicamente, mais se revêm nos ideais do 25 de Abril, apesar de não ter sido feito por eles. Mistura-se a celebração com a contestação.

Não me revejo nestas pessoas, mas vejo a sua mensagem. Não sei se propõe o caminho certo, mas sei que o que trilhamos agora não o é, e não faz justiça ao que aqui se passou há 39 anos.

****

Enquanto escrevo isto, sentada com a janela aberta ao sol de fim tarde, ouvem-se na minha rua as mesmas músicas que me acompanharam pela cidade. Saem dos cafés, dos clubes, das casas das pessoas. Vozes que se reconhecem, assobios, guitarras. Lembram-nos do que foi possível, e do que se passou antes, até lá chegar. E agora, para onde caminhamos?

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