“Empapada” em Fado

Discutia há dias que a diferença da música para as outras artes é que a musica envolve-nos, prende-nos, deixa-nos mudos e quietos quando realmente nos toca, sem que tivéssemos de estar totalmente concentrados nela para isso acontecer. E agora eu escrevia sobre Fado, com Fado em fundo mas sem atenção quando isto começou a tocar, e não pude escrever mais. Não era possível, as minhas mãos não respondiam, o batimento cardíaco alterou-se e o meu cérebro…todo o meu corpo, não se conseguia concentrar em mais nada a não ser nesta voz, naquele piano e na explosão que são os dois juntos.

Amália por Julio Resende/”Medo” – Dueto com Amália Rodrigues

Na mesma conversa, que, coincidentemente, decorria num sitio com Fado diziam-me que para escrever havia que principalmente “vivir. No solo estar, pero empaparse de todo lo que el momento nos provoca adentro” Esta palavra, “empaparse”, ressoa agora. Porque é esse sentimento de transbordar de emoções, de algo que me preenche de alguma forma porque estava  receptiva a isso que faz com que esteja a escrever isto, neste momento. Pode surgir num passeio na rua, num concerto, ou sentada ao computador.

Mas na verdade, isto não é só de agora. Fui, sem saber muito bem ao que ia, ver a apresentação deste disco há uns meses. E já aí, mal sentada, numa sala demasiado quente, atrás de demasiada gente, fiquei suspensa destas notas…empapada delas.

Barco Negro – Julio Resende

Julio Resende começou a tocar aos 4 anos. Formou-se inicialmente em Música Clássica mas cedo descobriu que não ficava satisfeito em ser apenas um intérprete de peças musicais em que não pudesse improvisar. Seguiu então pelo Jazz, participando em workshops das escolas nacionais e internacionais mais conceituadas.

Com 3 albuns editados pela Clean Feed, lançou este ano este “Amalia por Julio Resende”.

Diz ele “todos os pianistas têm o sonho de realizar um disco a solo. Eu queria fazer o disco a solo mais pessoal possível. Entendo a palavra “solo” como algo que tem que ver com terra, com raízes, com o chão que pisas, que habitas. Entre as minhas memórias musicais mais antigas está a voz da Amália a cantar “Uma Casa Portuguesa” ou o avassalador “Estranha Forma de Vida” e ela serve de símbolo para esta viagem musical.”

No dia em que o vi tocar, curvado sobre as teclas, de olhos fechados, sentia-se fisicamente como esse solo era pessoal. Estávamos todos lá com ele, e todos sozinhos connosco, e todos dentro da mesma música que ele soube tornar sua sem que perdesse o que a identifica. Disse, quando voltou à superficie, depois de algumas musicas “É dificil falar depois de tocar…” e isso notáva-se e tornava tudo aquilo ainda mais especial.

O Fado vive do sentimento que provoca, em quem canta e em quem ouve. Julio pretende transpor para o piano a maneira como as pessoas que o cantam o fazem: com toda a força e verdade do mundo, independentemente do quão afinadas. Quer “Cantar as melodias com o piano, em vez de as acompanhar apenas. Com o piano exprimir o que o Fado em mim significa.”  E o que nele significa é muito, a julgar pela maneira como o piano ressoa em nós, que o ouvimos.

E depois põe-lhe todas as outras coisas que não estão normalmente no Fado, e que foi procurar no Jazz, ao deixar a Música Clássica…às vezes dá ideia que tudo aquilo vai descarrilar, quase que deixamos de reconhecer o que lá estava antes, para no último momento, voltar ao inicio, e terminar, como o fazem os cantores tradicionais com os refrães. E esse quase descarrilar, esse caos controlado faz com que voltemos ao Fado ainda com mais força, para depois nos deixarmos ficar, exaustos, a sentir o piano ecoar ainda cá dentro, cheios.

E como Fado é como as palavras, e as cerejas, ao ir ver o Julio Resende, descobri o António Zambujo. Não que ande nisto há pouco tempo, eu é que andava desatenta.

A Tua Frieza Gela – António Zambujo e Julio Resende

Desde a sua origem que o género resulta da miscigenação e, para mim, o António Zambujo é um grande exemplo disso. Nascido em Beja, começou por trazer para o Fado as raízes do Cante Alentejano, juntando-lhe mais tarde  a Musica Popular Brasileira e o Jazz.

Algo Estranho Acontece – António Zambujo

E depois tem aquela voz. Não vem de dentro, do fundo,sofrida, como é habitual ver-se no Fado, mas flutua, entranha-se devagarinho, e depois vibra, no ar e em nós.

Então ali estava, como aqui, agora, com a voz de um e o piano do outro, empapada de coisas bonitas. Sentem-nas?

Foi Deus – Julio Resende e António Zambujo

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