O Fogo do Douro

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Da primeira vez que por aqui andei éramos dois. Era Verão e as vinhas carregavam a vida das uvas, os montes cobriam-se de socalcos verdes. Hoje sou só eu, é Inverno e os socalcos enchem-se de ramos secos. Mas não mortos. Como eu, as vinhas preparam-se para mais um ciclo. Não mortas, apenas despidas. E a toda a volta as folhas vermelhas. Um fogo latente. Ainda nas árvores, ou já pelo chão, o Outono no seu esplendor, apesar de hoje começar o Inverno. E eu perdida no meio da Serra. Contente na mesma por que sol começa a pôr-se por detrás da montanha e daqui a nada, quando eu lá chegar,afinal na hora certa apesar de duas mais tarde, o rio será um espelho dourado a receber-me. Eu a ser como as vinhas à espera, como o fogo das folhas, que vão cair para depois chegar a Primavera. Eu a saber que era a hora de vir aqui só eu, apesar dos ramos secos, do vazio. Eu a ver dentro do vazio e a encontrar as folhas de fogo.

***

E então chego à Casa Cimeira. Há uma Rua do Cimo do Povo na Paradela, aldeia perdida no cimo de um monte que o GPS assumiu ser o meu destino, mas era esta, em Valença do Douro que me interessava. Uma senhora velhinha que não sabia ler o meu papelinho “ Ah filha, Balença ainda fica lá longe…eu nunca fui. É melhor perguntar alí a alguém. Benha lá comigo”. Mas não há ninguém nas ruas. Um telefonema resolve o engano.

Paulo abre-me a porta. e encaminha-me para a sala de estar “Vamos para aqui que está mais quente”. Lá dentro está Artur, o pai. Estende-me a mão. “Ui, que mãos tão frias! Sente-se alí à lareira” e coloca mais lenha “Pronto, assim já vai aquecer”. Paulo volta com um copo de vinho “Porto de boas vindas”. Senta-se à minha frente. Eu iluminada e aquecida à direita, ele à esquerda. Estendemos as pernas, reclinamo-nos no cadeirão e a conversa acontece. Falamos da região, dos caminhos por onde andei perdida. Pergunto pela casa e tudo o resto flui a partir daí.

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Vive em Vila Real e está por cá de vez em quando, a dar uma mãozinha e tratar das reservas. Tem uma empresa de consultoria vínica, com um sócio francês. Da produção à enologia. Trabalham com quintas da região que têm a matéria prima, mas precisam do conhecimento. “Eu não estudei nada, aprendi tudo com a terra. Os meus pais sempre trabalharam no campo, são pessoas simples. Quando ficaram com esta casa, um amigo Suiço  desafiou-os a fazer isto e eles começaram. Em 2004. No inicio era tudo mais rustico. Há coisa de 5 anos comecei a dar uma mãozinha. Pus isto no booking e demos uma volta à decoração dos quartos. Não se podia estar à espera que as pessoas caíssem aqui”.

Artur contar-me-á mais tarde que a casa foi herança do antigo dono. Um senhor muito rico, de familias antigas, que não casou nem teve filhos. A mãe de Artur veio para cá trabalhar, depois Artur e a mulher. Antes de morrer deixou-lhes tudo em testamento. Dir-me-á também que se cansam muito, mas que foi melhor assim. “Se não não conseguíamos manter isto já viu. Uma casa tão grande dá muita despesa. Mas é uma prisão muito grande, não há descanso. Só que também conhecemos  muita gente, e as pessoas voltam. Também é bom. Já se fizeram aqui boas amizades. E também se não fosse isto, iamos fazer o quê? Ficávamos para aqui os dois…assim sempre estamos entretidos…mas é uma prisão muito grande. E no Verão é muito cansativo. Temos sempre a casa cheia.”

Para além da casa têm vinhas. Este ano Paulo lançou o primeiro vinho com marca da casa. 5000 garrafas de tinto e 1200 de branco, para começar. “ Vamos ver como é que corre. Fazia todo o sentido.Temos as terras e eu trabalho na área. Era uma coisa que queria fazer. Se não conseguir vender bem também se escoa tudo aqui, não há problema. O porto que está a beber também é produção nossa” Sorrio.

Falamos da zona, do desenvolvimento turístico que tem tido nos ultimos anos, de onde sou, do que faço aqui, do quanto os Portuguese conhecem menos isto que os estrangeiros. Termino o vinho e quando declino um segundo copo seguimos para o quarto, para que possa descansar antes do jantar, que será comunitário, em torno da mesa grande.” No Verão chegamos a ter 12 pessoas todas juntas aqui à volta. É um convivio interessante” É Maria, a mãe de Paulo que cozinha.

***

Hoje somos apenas três. Um casal de belgas, Jon e Delphine, e eu. Vamos conversando e Maria vai trazendo as travessas e garantindo que os copos estão cheios e que comemos. Eles já cá vêm há 5 anos, sempre por 2 ou três semanas “Here you always eat and drink too much. And if you don´t want to, she’ll make you.” Maria chega com a aletria e zanga-se porque não acabámos com a salada. Vai entrando e saindo, falando connosco do que lhe ocorre. Da comida, dos filhos, do frio, do Natal. “Eu nunca me calo. Às vezes ninguém me percebe, porque não falo inglês, mas estes dois já percebem qualquer coisa.” Delphine sorri, confirmando. “Agora já sei que morgen é amanhã, em flamenco. Ouvia-os p’raí morgen, morgen, morgen e perguntei-lhes. Já terminaram? Não querem mais vinho? Vão alí para a sala que está mais quentinho. Já levo mais uma pinguinha”.

Sentamos-nos à volta da lareira, com os copos de vinho. Falamos dos sitios que eles já percorreram aqui à volta. Maria e Artur juntam-se a nós. Começam por conversar um pouco, mas não passa muito tempo até que voltamos a estar só os três. Maria adormeceu na cadeira, a cabeça apoiada na mão, Artur está atento ao futebol que passa na tv. Quando olha para a mulher ri-se e chama “OH MULHER. Vai para a cama” “ Não durmo de noite é o que dá. Mas estava a ouvir tudo que é que julgam, só que pesam-me os olhos!”

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Um a um vão-se todos deitar. Fico eu e Artur, primeiro na conversa, depois cada um no seu mundo. Eu, o crepitar do fogo, um copo de vinho e o caderno de notas, até que também os meus olhos começam a pesar.

***

O dia amanheceu nublado. Chuvisca e há uma neblina pendurada nos vales. Eu tinha esta ideia romântica de estar aqui a escrever, com a neblina lá fora…mas entretanto houve o atraso, e a lareira e as conversas pelos cotovelos, e tudo isso foi melhor. E hoje há neblina e a mim apetecia-me passear. Tomá lá, que não és tu que controlas tudo.

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Depois da mesa farta do pequeno almoço saio para caminhar um bocadinho. O frio também não está para grandes passeios, mas as vinhas são mesmo aqui ao lado. Então estou aqui, no meio dos troncos nus. Não há sol para reflectir o fogo das folhas, mas elas brilham mesmo assim, molhadas de orvalho.

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Apoio o caderno num tronco, com os dedos dormentes dentro das luvas. Também não sinto os pés, mas não me apetece mexer-me daqui para já. Há minha volta os socalcos descem ao longo do vale, até ao rio. O silêncio abafado do tempo húmido é interrompido apenas pelo pio dos pássaros e algum carro em esforço nas estradas inclinadas que não se vêm daqui. Árvores de diospiros sem folhas, mas carregadas de bolas laranja pontilham algumas zonas. O Douro, sem sol, parece de chumbo.

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Começou a chuviscar, volto para a lareira.

E enquanto aqui estou, a organizar ideias sobre o que foi este dia-noite que era para organizar outras ideias e escrever outras coisas, penso em como é bom não só deixar a vida acontecer, como empurrá-la para a frente, para que aconteça. Poderia estar em Lisboa, porque vinha sozinha, mas vim. Poderia ter-me enfiado no quarto, mas fiquei por aqui, a ouvir as histórias de Artur e Maria e Paulo, que nos recebem como se estivéssemos  em casa. E entretanto esta história aconteceu, e eu fiquei aqui à lareira enquanto me trazem rabanadas acabadinhas de fritar, e um porto, “porque é o que vai bem. A menina deixe-se ficar sossegadinha o tempo que quiser”  E eu queria ficar aqui sossegadinha, mas é tempo de me fazer à estrada, e isso também é bom.

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