Caminhar no escuro

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Estamos neste largo há 20 minutos e só agora, de venda posta, me dou conta do irritante que é esta ambulância de brincar. Mal consigo ouvir Carlos, o nosso guia invisual neste passeio às cegas por Alfama. No momento em que tudo ficou escuro, os sons amplificaram-se: pneus a rolar na calçada, pessoas que falam demasiado alto, crianças que correm e brincam e gritam (bolas, como gritam!). Alguém pare aquela ambulância, por favor.

Estamos agrupados dois a dois, de braço dado a cada lado de um guia, que vai desvendado para evitar acidentes. A ideia, explica-nos Carlos é dar-nos algumas referências sensoriais, fazer-nos perceber como podemos usar melhor todos os outros sentidos: ”Não vão ficar a perceber o que sente um cego. Nós já estamos habituados, vocês não. É como alguém que vai ao ginásio pela primeira vez, também não consegue levantar muito peso, tem de treinar. A ideia é que tentem absorver o máximo de informação, perceber como a podem relacionar. E depois, talvez, usarem um bocadinho isso na vossa vida”.

Começamos. Inês, a nossa guia, diz-nos para estarmos tranquilos, confiarmos. É dificil. Arrasto os pés, dou passinhos minimos, levanto o braço que tenho livre a procura de referências, mas nada. Esbracejo, ainda nada. A sensação de vazio é assustadora. Eu sei que há coisas aqui à volta, ainda à pouco fiz esta rua em sentido contrário, mas não consigo imaginar o que era, assim no escuro.

Primeira paragem. Carlos pergunta-nos se conseguimos perceber se estamos num local estreito ou amplo, fechado ou aberto. Bate palmas e diz-nos para tentar escutar os sons e a reflexão destes nas paredes. A mim parece-me mais estreito e aberto em cima, mas dizem-nos que é relativamente amplo, mas com muitas paredes, daí o sentir-se o eco do som a bater nas paredes. “Isto começa bem” penso.

Para chegar ao segundo ponto de paragem há que descer 4 degraus. Inês avisa-nos. Pé direito, 1 degrau; pé direito, dois degraus; pé direito, três degraus, pé direito, quatro degraus. Paro a sentir o chão à minha frente, com medo que haja mais um e possa pôr o pé em falso.O meu braço continua desesperadamente a balançar à procura de uma qualquer referência.

Colocam-nos de frente para árvores, guiam-nos as mãos para tocar os troncos. Imagino o que será isto para alguém que aqui esteja a passar: 10 pessoas de vendas nos olhos a apalpar árvores. Mas enquanto aqui estou parada estou confortável. Sei o que está à minha frente, a árvore, e ao meu lado, os meus companheiros. Não há vazio e isso é reconfortante. Escrevi uma vez que os cegos tinham “os olhos na ponta dos dedos” e que, nesse sentido, as pontas dos dedos eram olhos com pouco alcance. Tudo isso me parece reforçar-se com esta experiência.

Levam-nos depois para um corrimão. Carlos pede-nos para escutarmos. Ouvem-se carros muito ao fundo, o zumbir da cidade, aves, sentimos a brisa na cara. Estamos num miradouro. Esta acertámos todos. Penso saber onde estamos, já aqui passei. Por isso consigo imaginar a vista que se estende à nossa frente: o Rio, o cais de Santa Apolónia, a baixa para a direita, com a ponte ao fundo. Sei que é uma vista bonita, mas e Carlos, saberá? O que procurará um cego ao passear? Não com certeza as paisagens abertas com que quase todos nos deslumbramos.

Seguimos caminho, e este torna-se cada vez mais acidentado. Passeios que temos de subir e descer, que estão irregulares por causa das raízes da árvores, diferentes tipos de piso, que escorregam mais ou menos, buracos. Inês vai-nos avisando, mas pouco. “Sintam bem o piso e deixem que o vosso corpo reaja às alterações”. Estes conselhos derivam da sua experiência como bailarina de dança contemporânea e da experimentação com o corpo que me falava antes de começarmos. Apetece-me dizer-lhe que isso é tudo muito bonito, mas não agora, que não vemos nada, mas não digo. No fundo tem razão.

Escadas, degraus de alturas diferentes, a pergunta constante se já acabaram, o medo de tropeçar e cair, de por o pé em falso. O conforto de agarrar o corrimão, a mão livre sempre à frente do corpo. Sentir e adivinhar bocas de incêndio, cordas da roupa, folhas, videiras. O cheiro a roupa lavada, a café, a esgoto, a esquina usada.

No Beco do Carneiro (não o dizem, mas adivinho) temos de seguir em fila indiana. Os quatro palmos de largura não acomodam duas pessoas, menos ainda três. Seguimos em fila, mãos nos ombros do colega da frente. Descemos a ritmo bem lento, condicionado por quem vai à frente. A meio instruem-nos para nos largarmos e abrir os braços. Aí percebemos a real dimensão do corredor que é este beco. Agora é para seguir sozinhos, com o apoio da parede e dos corrimões. Degrau a degrau, uma mão sente o relevo da parede, a outra agarra com força o corrimão. “Se alguém tropeça ou escorrega é um baralho de cartas por aqui abaixo…”. Afasto estes pensamentos e tento sentir o que me rodeia: parede rugosa, parede lisa, parede com azulejos, grades (será uma porta?), nova parede rugosa,” mas estas escadas nunca mais acabam?”, mais azulejos. Choco com quem vai à minha frente. Aviso para trás que é para parar. Aguardamos, todos parados nas escadas, que o movimento recomece.

O passeio segue pelas ruas estreitas de Alfama, agora mais movimentadas. O meu braço continua levantado à procura do toque que traz a segurança, o que provoca um contacto pouco próprio com uma senhora que passava em sentido contrário. Devo ter corado. É altura de o baixar.

Entramos num lavadouro municipal. Sentimos tanques da roupa, e as mãos entram dentro de água. Está gelada. Alguém se armou em engraçado e abriu uma torneira. Há salpicos frios por todo o lado. O som ecoa e não deixa ouvir mais nada. Imagino o que seja para um cego, se os sons são uma referência tão importante, chegar a um lugar em que um deles abafa todos os outros, como agora. Passamos por estendais e sentimos a roupa: uma camisa, umas meias, um chapéu, umas…cuecas?!

Inês senta-nos num muro. Consigo perceber que estamos no largo do Museu do Fado, portanto consigo imaginar a paisagem, mas não as pessoas. Sabe bem estar quieta, sem receio de tropeçar, sabendo o que me rodeia.

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Está uma senhora a falar com um dos guias, que é do bairro. Diz-nos que tem 82 anos, ele diz que está muito bem conservada. Mais tarde, já a ver, vamo-nos cruzar de novo com ela. Soava-me a uma pessoa muito mais…popular, com pouca educação, que teria um aspecto mais descuidado e, não sei porquê, mais gorda. É velhota, parece muito mais nova que a idade que tem realmente, mas, com um aspecto cuidado…uma senhora. Sinto-me envergonhada pelo juizo que fiz, e ao falar com J, que partilhava comigo a Inês, chegamos à conclusão que tinhamos sentido o mesmo.

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A última parte do percurso passa por ruas muito movimentadas. Cheira a lume para churrasco, a carne e peixe a assar, a fruta das mercearias, a café. Sente-se que passa  muita gente, e que a rua é mais estreita.

Quando não vemos, temos a sensação de que os outros também não nos vêm. Aqui voltamos a ter imagem própria ao escutar :” Olha estes…”, “ Deve ser algum documentário”, “Parece que é gozar os ceguinhos”, “Deixa passar”, “Deve ser alguma acção de teambuilding”, “Vejam lá, não se magoem…”.

No fim de tudo colocam-nos em circulo e, à vez, tentamos adivinhar o valor de 4 moedas que nos são passadas. Falho redondamente.

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Lentamente tiramos as vendas, primeiro com os olhos fechados, para se irem acostumando à claridade. Ao abri-los apercebo-me que imaginara o largo onde estamos totalmente diferente, e que não tinha sequer noção do tamanho da roda que formámos, ou que os nossos guias estavam atrás de nós. Inês sorri-me enquanto pisco os olhos, ainda sensiveis.

Fazemos o caminho inverso, tentanto adivinhar por onde viemos. A cada esquina uma opinião diferente, e por vezes, mesmo com pistas, não chegamos a consenso. Eu estaria já totalmente perdida e tudo isto me parece muito diferente do que imaginava enquanto caminhava no escuro.

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