Diário(s) de Bordo: Málaga – Las Palmas

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Estou sentada na “sala das cartas”. Piso 8, no eixo central do barco, que se destaca para fora, fazendo um círculo. Há mesas e cadeiras junto às janelas, de cada lado do círculo. As tais para jogar às cartas. No centro, um poço que atravessa os pisos 5 a 10, onde estão os elevadores panorâmicos. Estou aqui para não estar no camarote, que é interior. No piso de cima há cadeirões e uns armários que servem de biblioteca. Estes serão os meus lugares, nestes 3 dias, não nos restantes. Mas ainda não sei isso.

2015-10-25 18.41.39

A luz é amarelada, os corrimões são dourados, o chão é de alcatifa bordeaux ou bege, dependendo dos pisos. No restaurante há muito mármore, ou pedra com aparência de mármore.No quinto e sexto piso há bares com música ao vivo, que se ouve aqui. O repertório não é agradável. Vai melhorar, depois de Las Palmas, e piorar depois de Salvador da Baía, mas agora também ainda não sei isso e arrepiam-se-me os pelos da nuca a ouvir Celine Dion, às vezes em espanhol, e Whitney Houston, com sotaque.

Chegam 3 russos, 50 e tal anos, duas mulheres e um homem. Sentam-se e usam as mesas para a sua função.

Navegamos com a costa à vista. Milhares de luzinhas. Haverá zona virgem de luz, entre Málaga e Gibraltar? Não vou descobrir. No ultimo piso, ao ar livre, não se vêm estrelas. Não as vou ver até ao 4º dia, já no meio do Atlântico, mas também ainda não sei isso. Sei que hoje há demasiada luz do barco e da costa. E nuvens. E o vento…o vento é impressionante. Ensurdecedor e frio, hoje.

Tudo nestes dias vai ser o que esperava de mau. A piroseira, a futilidade, o mau gosto, o ridiculo das actividades, com excepção das aulas de dança. Mas vai também ser o que de bom queria que fosse. Sentir a distância, o tempo que dura essa distância. Ver as cidades afastar-se lentamente, enquanto deslizamos para fora do porto. Perceber as ruas a ficarem mais pequenas devagar, o mar a crescer à nossa frente. E, depois disso, ler. Ler muito. E ao ler, ter inspiração para escrever. Nestes 3 dias vou escrever o meu primeiro conto, aqui nestes dois pisos tranquilos, enquanto grupos de espanhois e brasileiros gritam na zona da piscina. Está frio e vai chovendo a espaços, eles distraem-se a beber e fazer barulho. No meio deles, ou talvez também isolados num qualquer outro lado, estão já pessoas de quem vou ter saudades quando isto acabar, mas também não sei isso agora. Estes 3 dias serão de palavras a todas as horas, livros e canetas como única companhia, e isso é tudo o que queria deles

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