Diário(s) de Bordo: A Travessia

Dia 4: Cabeça de Tempestade e Noite de Bonança

Há dois dias que não temos pôr-do-sol. Está um calor sufocante. O ar pesa de humidade e agarra-se à pele. Durante o dia passeiam nuvens que são bolinhas de algodão, juntas mas separadas. Ao fim da tarde um manto cinzento planta-se no horizonte e esconde o sol que não chega sequer a ficar laranja. É uma bola amarela, filtrada pela humidade, e põe-se atrás dessa cortina cinzenta, opaca. A minha cabeça está como este ar, hoje. Com suspeita de tempestade.

Já passámos Cabo Verde, ontem à noite. Hoje atrasamos o relógio mais uma hora. Menos duas que em Portugal. O tempo anda para trás enquanto nós andamos para a frente.

A Naikari é Basca e meteu conversa comigo à saída de Las Palmas. Também viaja sozinha. Se nos encontramos durante o dia, passamos horas em silêncio, cada uma no seu livro, no seu caderno, e horas a falar do que nos ocorra. Umas vezes em Inglês, outras em Espanhol, outras em Português. Porque sim.

O Matias é Argentino e o Camilo é Espanhol. São amigos. O Matias estás a voltar à Argentina por uns tempos, vindo de trabalhar em Ibiza. O Camilo está de férias e volta para Madrid depois de uns dias em Salvador e no Rio.

Nós os quatro somos a mesa de jantar que primeiro nos impuseram e depois esteve para não acontecer…problemas de cruzeiros. Mas ao quarto dia já chegamos todos mais ou menos à mesma hora e a conversa flui naturalmente. Vou saber mais tarde que eles acharam que não queriamos comunicar com eles, por estar a falar em Inglês no primeiro dia. No segundo mandaram-me para outra mesa e quase fizeram o mesmo com eles, por uma qualquer razão que não chegámos a perceber bem. Os 3 falaram em espanhol. No 3º ele ouviu-me falar em espanhol e achou que eu era Argentina. Estavam feitas as apresentações.

Da mesa resulta que fico para a noite, sem saber bem porquê. Achava que me ia deitar cedo, com a minha cabeça de tempestade. Vai ser piada repetida ao longo da noite, o meu deitar cedo. Às tantas são 5 da manhã. Dancei. Conheci mais Argentinos, mais Espanhois, um Português e o rapaz das rastas e do caderno de couro, que é Austríaco e dança bem. Todos me dizem que não me viam ali aquela hora. Eu, que passo o dia no lado tranquilo do barco, a ler. Ainda não me conhecem. Gosto pouco de rótulos portanto, gosto disso.

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