Rota das Estrelas da Estrela: Loriga em tons de Outono

No último dia, quase sem querer, acabámos por fazer o passeio perfeito para dizer olá ao Outono. E foi a melhor maneira de encerrar o périplo pela Serra da Estrela. Faltaram muitas estrelas a esta rota, mas estou mais que certa que voltarei muitas vezes para ir completando a constelação. 

Chovia de novo quando acordámos. Já tínhamos decidido abortar o plano de chegar até Piodão e fazer só uma volta pelo trilho da ribeira de Loriga. Talvez ir até Cabeça e voltar ao Vicente para mais bacalhau e farinheira. O chão molhado e o cinzento vistos da janela reforçavam esta decisão. Preguiçámos sem vergonha, a ver se melhorava, mas não havia sinal disso. 

Não era só mariquice minha, nem o habitual avesso a andar à chuva. Tínhamos lido que a zona das levadas podia ficar perigosa se molhada, por ficar escorregadia nas pedras com precipício ao lado. Mas depois de almoçar a ração desidratada que ainda nos sobrava de quando achámos que esta seria uma rota em autonomia, saímos mesmo assim. Não íamos correr riscos, mas antes ver pouco que ficar a pensar como teria sido. No mínimo, esticávamos as pernas caminhando até onde desse em segurança.

Cheirava a Outono. A chuva, húmus e lareiras a fumegar. O trilho começa ladeando os campos de cultivo na vertente onde se pendura Loriga, descendo até à ribeira. Entre as pingas e a névoa admirávamos as linhas serpenteantes dos socalcos característicos da zona. Quando chegámos à ribeira já tinha parado de chover.

O trilho atravessa uma ponte e segue depois mais ou menos paralelo à ribeira, a diferentes alturas, até cruzar de novo. A paisagem é muito mais rural que selvagem, mas encanta ainda assim. Metemo-nos por uma floresta de pinheiros. A caruma amortecia-nos os passos e juntava-se ao efeito da névoa para criar uma bolha de som abafado.

 A acção humana reduziu a vegetação natural a pequenos redutos localizados em zonas de difícil acesso. O azinhal da Mestra Brava e o valioso bosque de Azereiros de Casal do Rei, onde não chegámos, são relíquias da vegetação natural deste vale e acrescentam razões à nossa vontade de voltar.

Na ribeira, a erosão modelou cavidades de grandes dimensões, designadas de marmitas de gigante. Como o caminho estava carregado de água e lama avistámo-las apenas de longe. 

Quase a chegar a Serapitel, cruza-se de novo por uma ponte que já viu melhores dias. Mesmo antes dela, um pequeno trilho por cima de uma levada em ruínas levou-nos até ao primeiro poço de broca. Datadas de há cerca de 200 anos, estas obras foram construídas em meandros apertados para desvio da ribeira e aproveitamento dos terrenos drenados e acabam em quedas de água mais ou menos imponentes. Esta era das pequeninas, mas pediria um mergulho em dias mais quentes. Até Vide, onde acaba esta rota, existem vários maiores que ficaram também na lista para outra vez.

Depois da ponte vêm-se algumas casas abandonadas com trepadeiras de videira a pedir barrigadas de uva e é depois delas que a água contida entre muros passa a ladear o caminho. Ou será o caminho que ladeia a levada? Nestas construções deixadas à sua sorte é sempre difícil estabelecer origens. Fácil é admirar a simbiose entre estas pedras e o seu meio circundante e a água a reflectir a sombra das árvores.  

Fomos andando. Às vezes o trilho ladeava a levada, às vezes o trilho era o próprio muro da levada, às vezes o trilho ficava cortado por um deslizamento de terras que ultrapassávamos de um salto. Ficámos com vontade de o fazer até ao fim, mas cada vez ficava mais escorregadio e começava a escurecer. Estava na hora de voltar para trás. 

A última estrela da Rota das Estrelas da Estrela foi assim uma pequena gigante vermelha. Vermelho Outono com cheiro a terra molhada e o gorgolejar de riachos e levadas. Natureza e homem numa simbiose esquecida que só acrescentou mais encanto a esta constelação que descobrimos Setembro passado.

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