Memórias de Calcutá

Esta cidade faz-me sentir bipolar. É sentimento comum à Índia toda, mas ali, mais que em qualquer outro sítio, a contradição de sentimentos assaltou-me desde o primeiro dia. Com o passar do tempo e os vários regressos, aprendi a lidar com estes sentimentos. Conheço os sítios e o impacto que têm em mim, e em quem levo comigo. Mas este primeiro contacto com Calcutá continua marcado. Após cinco dias, nessa primeira vez, estava cheia de vontade de me ir embora e, ao mesmo tempo, contente de saber que voltaria e a mostraria a outras pessoas. Sentia-a como a encarnação completa da Índia, com todas as suas idiossincrasias, contrastes e contradições, acumulação de camadas de história e estórias nas fachadas decadentes dos edifícios. Estas foram palavras escritas durante essa visita, a mais impactante. Entretanto, já aprendi mais sobre a história, costumes e tradições, já fico menos baralhada, mas muitos destes sentimentos ainda me assaltam a cada retorno.

Flores, poemas e lixo

Manhã cedo, mercado de flores de Malik Ghat. Tanta cor a despontar do cinzento e da sujidade. Tanta vida, tanto lixo, tantos cheiros. Amarelo, laranja, vermelho, branco. Sacos e amontoados de flores. Homens que caminham transportando tantas pilhas de grinaldas de calêndula que parecem vestidos de pétalas. Há bancas montadas com balcões e tectos, e pessoas só sentadas no chão com balanças e sacos.

De cada lado da rua principal há mais mercado, escondido por chapas de zinco. Produtos diferentes, ruas fechadas, uma linha de comboio que corre paralela à rua, encostada a um bairro de lata. Do lado oposto, o rio Hooghly corre castanho e há crianças a brincar, pessoas a tomar banho e a fazer cerimónias religiosas.

Toda a gente grita, toda a gente passa apressada, toda a gente carrega algo, empurra algo ou puxa alguma coisa. Na ponte Howrah, que cruza perpendicularmente a rua do mercado por cima, caminham rapidamente homens descalços ou de chinelos, com carga na cabeça que parece pesar o dobro do seu corpo magro.

Deixo o mercado sorrindo, infundida da sua energia. Meia hora depois, enquanto me aproximo de Rabindra Sarani, a estrada nomeada em honra a Rabindranath Tagore, já praguejo baixinho, amaldiçoando o buzinão constante, o interminável “Ma’am, here!” a cada metro, o atropelamento iminente por motas/autocarros/carros/bicicletas/tuc-tucs/pessoas, o cheiro a urina/fumo de escape/incenso/esgoto/suor/chulé.

Nos quarteirões que ladeiam a estrada, sinto-me apaziguada de novo. O caos permanece, mas há algo na vida do bairro que me atrai. Talvez a grandiosidade decadente dos edifícios que se destacam das muitas lojas decrépitas, mas coloridas, ou as oficinas de trabalhos em mármore com dezenas de estátuas de deuses brancas e cinzentas, que transbordam para a rua.

A mansão de família de Tagore fica neste bairro e é um refúgio de paz. Ocupa um quarteirão vedado inteiro, pintado em vermelho e verde e com um relvado bem mantido. É um museu dedicado à vida do poeta e pensador, e uma universidade fundada por ele.

Espanto-me com o alcance do seu trabalho. Conhecia-o apenas como poeta com o Nobel da Literatura em 1913, mas foi também romancista, músico e dramaturgo, reformulou a literatura e a música bengali no final do século XIX e início do século XX e foi um reformador social e um importante polemista, tentando promover um ideal de cultura e tolerância baseado na tradição hindu. Era amigo de Gandhi e Nehru e defensor do movimento de independência da Índia, o que o levou a renunciar o título de cavaleiro do império britânico, mas acreditava na cooperação entre os povos e, acima de tudo, que o caminho para a Índia era a unidade na diversidade (referindo-se aos vários povos e religiões que a compõem). O hino da Índia e o do Bangladesh foram ambos escritos por ele.

Descalça, num corredor da varanda da casa onde expõem uma cronologia da sua morte, pondero, emocionada, nas suas palavras:

“When death comes and whispers to me

Thy days are ended

Let me say to him “I have lived in love and not in mere time (…)”

Muito próximo deste quarteirão está o Marble Palace, uma mansão apalaçada de 1835. O seu esplendor colonial entre os edifícios em ruínas desconcerta-me e encanta-me. Junto aos seus portões, um homem toma banho despejando um balde de água na cabeça, outro dorme em cima de cartões no chão. Senhoras com saris coloridos caminham, conversando e rindo enquanto um terceiro homem puxa a pé um riquexó com um casal.

Paro numa esquina a beber um chai fumegante, servido por um senhor sentado numas tábuas de madeira, sem saber bem o que estou a sentir.

Deuses e homens

Fim do dia, Kalighat. Estou de novo num bazar, mas este sente-se diferente. Talvez seja o ambiente caloroso transmitido pelo dourado, vermelho e branco dos latões e artefactos religiosos. Talvez só apanhei um dia bom, sem muita confusão. Seja por que for, sinto-me tranquila aqui.

No templo de Kalighat — que honra a deusa Kali e é o lugar mais sagrado para os Hindus na cidade — um homem de cabelo grisalho curto, vestido com uma camisa de manga curta e um dhoti, apresenta-se como o Brahmin do templo. Incentiva-me a segui-lo, enquanto vai dando explicações sobre o lugar. Hesito, sempre alerta para esquemas, mas decido confiar no seu sorriso e no meu instinto. 

Leva-me a comprar uma grinalda de flores, e explica que vamos levá-las para dentro do altar, para ver Kali. “First you look Kali in the eye, then you throw flowers.” Aceno afirmativamente. Ele repete: “First you look“. Aceno afirmativamente, novamente.

Juntamo-nos à fila e vamos andando lentamente. Lá dentro é o caos. Estão dois homens de cada lado do nicho onde está a estátua da deusa. São eles que puxam as pessoas para dentro, ou as empurram para fora. Os crentes empurram-se para chegar mais perto, ou para ficar mais tempo. Há alguém que cai e outros que avançam, quase o pisando. O Brahmin faz-me sinal que avance, um pouco de lado, e aponta de novo para os meus olhos e depois para os da estátua. “Now throw the flowers!”, grita. Obedeço. Ele puxa-me pelo braço para me tirar da confusão, enquanto empurra outras pessoas. Saio ilesa, mas confusa. Se toda a gente se mantivesse na fila e fizesse as coisas na sua vez, isto seria tudo tão mais tranquilo.

Depois de me levar ao tanque sagrado, ao lado do templo, atrás de uma porta que eu nunca teria entrado sozinha, mostra-me como devo colocar o resto da grinalda como oferenda a Shiva e pedir bençãos para mim e para a minha família. Ele acrescenta que deseja que eu consiga um bom marido. Despedimo-nos à porta do templo, com um Namaste e um sorriso, enquanto o céu se torna lilás e as luzes do mercado reflectem nas oferendas douradas.

Pôr do sol à beira Hoogly

Numa daquelas coincidências boas das viagens, uma rapariga inglesa que conheci no Equador pôs-me em contacto com o Partha, um jornalista de meia idade de Calcutá, que ela conhecera quando visitara a cidade, um ano antes. Depois de um dia em que me conduziu pela cidade, levou-me até ao passeio à beira-rio do Princep Ghat. Chegados ali, parecia que estávamos noutra cidade. O sol era uma bola laranja bem definida a passar por baixo do tabuleiro da ponte Vidyasagar Setu e o passeio era uma rua pedonal com jardins cuidados e bancos onde casais de namorados davam as mãos.

Havia caixotes do lixo (!) e nos carrinhos de comida e chai ninguém gritava. A espaços, estavam escadarias largas (os ghats) até à água e em alguns deles alugavam-se barcos para passeios. O ambiente era de festa, mas tranquilo e eu não queria acreditar.

Numa coincidência ainda melhor, calhou que estou em Calcutá ao mesmo tempo que a minha grande amiga Célia, que conheci há 7 anos a fazer voluntariado na Argentina e que também anda a viajar pela Índia. Hoje, depois de um dia em que fizemos quilómetros a pé e nos animámos e desanimámos com a cidade mil vezes, decidimos acabar em bem e vir até ao Princep Ghat. Sentámo-nos nos bancos, como os namorados, vimos a sociedade calcutana a passar, o sol a descer e as luzes lilás que cobrem todos os varões a acender, bebemos um chai quentinho e picante que comprámos a uma senhora que nos falou só com sorrisos e voltámos pacificadas para o hotel onde aterrámos que nem duas pedras.

Ar condicionado e fumo de escape

Esta tarde estava tão exausta que fui ao cinema só pelo fresco do ar condicionado e do anonimato de uma sala escura. Fui ver o Lion e acabei a chorar baba e ranho. Antes, comi uma masala dosa no food court do centro comercial e senti-me um bocadinho culpada e uma maricas. Depois do cinema senti-me estupidamente feliz a comer pani puri numa banca de rua agitada e o melhor chai que já provei, numa esquina escura, enquanto respirava o fumo dos escapes e ouvia o buzinar constante.

Amanhã talvez esteja de diarreia.

Ver para além do nojo

De carro com o Partha e a pé nas minhas andanças, passei várias vezes por BBD Bagh. Aqui era o coração da Índia Britânica, na altura em que os edifícios do Raj ainda eram grandiosos. Agora, só a Casa do Governador mantém a elegância (era a residência do vice-rei da Índia, agora é a residência do governador do estado de West Bengal), mas está fechada atrás de grandes portões. O Partha tem um enorme amor pela sua cidade, mas é um homem informado e tem um espírito crítico sagaz. Enquanto conduzia e me apontava os edifícios, que me teriam passado despercebidos, cobertos que estão de bancas de tudo e mais alguma coisa ao nível do passeio, comentava: “Look at them, they are still grand. But we’ve got to know the history, and honor it. I wish there was more effort in keeping them, but they are still beautiful. We’ve just got to see past the grime.” Andando pela cidade, penso em como isso se aplica a tantas coisas na vida. Há beleza em quase tudo, só temos que a procurar.

O próprio Gandhi disse uma vez  “India is a country of nonsense”. Calcutá parece o exemplo perfeito. Talvez seja isso que me atrai nas duas.

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