Uma roadtrip com caminhadas por várias serras de Portugal e os restaurantes onde nos regalámos depois.

De cada vez que eu e o Borja viajamos por Portugal, acrescentamos às nossas wishlists trilhos de caminhada ou bicicleta que queremos fazer e restaurantes onde queremos voltar. Desta vez decidimos caminhar vários desses trilhos em diferentes serras, ligando-os numa roadtrip de 9 dias. Voltámos também a vários restaurantes que já se tornaram clássicos nas nossas andanças e fizemos umas quantas novas descobertas. Este foi o nosso roteiro:

Dia 1: Serra d’Ossa

Alojamento: Hotel O Gadanha, Estremoz

O mau tempo foi um companheiro quase sempre presente nestes dias. Preparados com impermeáveis, botas e guarda-chuvas, encarnando o ditado norueguês “não há mau tempo, há mau equipamento”, fomos adaptando a nossa vontade de molhas com a vontade de trilho. Na Serra d’Ossa andámos menos do que planeáramos, percorrendo de carro a estrada bonita que atravessa a serra. Olhando o início dos trilhos que havíamos apontado, só se via lama fresca e funda e a vontade vacilou.

Na Aldeia da Serra deparámo-nos com um sinal para um percurso pedestre que decidimos começar, mesmo debaixo de chuva, e que resultou numa agradável surpresa.

O Percurso Pedonal da Serra d’Ossa é um trilho linear de quilómetro e meio (ou circular de três quilómetros, voltando pela estrada como fizemos) com caminhos de terra batida e passadiços em madeira que serpenteiam por entre hortas centenárias, floresta autóctone e penhascos fortemente ligados ao passado eremítico da serra. Liga com o Trilho dos Eremitas da Serra d’Ossa, uma rota de 20 quilómetros que já foi para a tal wishlist.

A resiliência ao mau tempo compensou. O caminho é muito bonito, ao longo da Ribeira do Monte Virgem, que corria cheia de força. Passa por alguns edifícios abandonados e pomares em socalcos, remanescentes da ocupação pelos monges eremitas da Ordem de São Paulo.

A chuva abrandou durante o nosso trajecto e a paisagem verde brilhava com o sol a reflectir nas folhas e erva molhadas. Quando começámos a subir os 400 degraus dos passadiços, que trepam pelas escarpas de xisto, já o céu azul se mostrava. Fico sempre impressionada com estes intervalos rochosos na paisagem alentejana, que estamos tão habituados a associar a planícies intermináveis.

Chegados ao topo, desde a Igreja de Nossa Senhora do Monte da Virgem, víamos o vale e os montes circundantes, nos diferentes tons de verde das árvores e o cinzento brilhante da pedra molhada, muito satisfeitos por termos insistido em caminhar.

Ao fim do dia, subimos à torre da Pousada de Estremoz e apreciámos o contorno da Serra d’Ossa ao pôr do sol, prometendo voltar em dias mais secos.

Fizemos um aperitivo no bar da Cadeia Quinhentista e seguimos para a refeição que nos levara a escolher Estremoz como poiso, no Gadanha Mercearia e Restaurante.

Podem escolher à vontade, é tudo bom, mas não deixem escapar a sobremesa de avelã. Descrevi-a como um filho ilegítimo de um Baci com um Magnum Doble Caramelo, com um Ferrero Rocher à mistura, mas em versão caseira de várias texturas. É tão decadente como soa e triplamente delicioso.

Dia 2: À Beira da Serra (da Estrela)

Alojamento: Cró Hotel Rural, Rapoula do Côa

Um dia mais de estrada que de caminhadas, para nos aproximar do Vale do Côa, com a Estrela no horizonte. Voltar às Beiras é sempre uma alegria.

Foram 300 quilómetros de condução entre chuvadas, para chegar a Rapôula do Côa. Fizemos aquela transição subtil entre o montado alentejano e o planalto beirão pelas estradas lindas que já conhecemos tão bem. Prados verdes, granito rolado, oliveiras e amendoeiras em densidades variáveis, o asfalto emoldurado por árvores que mudam com as estações.

Tínhamos duas horas entre a chegada e a hora marcada na piscina das termas, que estão ligadas ao hotel. A chuva não dava tréguas, mas quando pareceu abrandar, nunca parar, juntámos bocadinhos de trilhos que saíam ali mesmo do hotel com a Grande Rota do Vale do Côa para tentar fazer 6 quilómetros circulares.

Depois de atravessar as ruínas dos antigos edifícios das termas, de poça em poça, num caminho meio alagado, aproximámo-nos do rio Côa. Só que o trilho atravessava uma ribeira, intransponível com o caudal que a chuva havia trazido e tocou-nos fazer oito quilómetros num ida-e-volta apressado, directo para os jactos de água quente da piscina. Há chegadas piores.

O jantar foi no restaurante do hotel, que, não sendo memorável, é bom o suficiente para fazer uma noite simpática e não ter de ir a outro lugar.

Dias 3: Os Vales Renaturalizados

Alojamento: Casa da Cisterna, Castelo Rodrigo

O que nos levou à região do Vale do Côa, afastando-nos ligeiramente do tema serras, foi a vontade antiga de visitar as áreas protegidas da Rewilding Portugal. Eu já conhecia bem a Faia Brava, a primeira área protegida privada de Portugal e queria muito estender esse conhecimento a estas. Através da compra de terrenos selvagens e rurais abandonados e da sua renaturalização, a Rewilding Portugal pretende promover o desenvolvimento de um corredor de vida selvagem de 120.000 hectares no Grande Vale do Côa, melhorando a conectividade na paisagem entre a cadeia montanhosa da Malcata e o Vale do Douro. É um processo em curso, que envolve não só as áreas específicas da Rewilding Portugal, mas também outros parceiros, como a Faia Brava, quintas e associações locais, alojamentos e produtores, para a construção de uma economia baseada na natureza e na cultura para criar apoio comunitário a um ambiente mais selvagem.

Este foi, então, um dia de vales.

Começámos pela Àrea Rewilding de Vale Carapito, a norte da aldeia histórica de Vilar Maior. Respeitando a sinalização e todas as indicações, fizemos o trilho marcado de 2,6 km. Continuava a chover, mas não queríamos deixar passar a oportunidade. Logo no topo da primeira subida avistámos um grupo de cavalos Sorraia semi-selvagens, tranquilos e protegidos da chuva debaixo da copa das árvores. A introdução desta raça de cavalos nas áreas rewilding visa promover um controle mais sustentável da vegetação combustivel e contribuir para o equilíbrio dos sistemas naturais. Além disso, são lindos de ver. Mantendo a distância de 50 metros aconselhada, ali ficámos um pouco, de sorriso e entusiasmo estampados, a admirá-los antes de seguir caminho.

Não vimos corços, que já começaram a voltar a este lugar, após anos em que a actividade agrícola os afastou, mas apreciámos os vários habitats desta área em renaturalização: florestas mistas de folhosas e coníferas, matos, prados, as ruínas do passado agrícola como muros de pedra seca e restos de moinhos de água, agora atravessados pelas raízes de grandes amieiros, freixos e várias espécies de carvalhos. A água do rio Cesarão e da ribeira de Alfaiates corria ruidosa e o castelo de Vilar Maior vigiava desde a colina em frente. Ficámos muito contentes por não ter deixado a chuva desencorajar-nos os passos.

A Área Rewilding do Ermo das Àguias situa-se perto da Aldeia de Vale de Madeira, Pinhel. A entrada fica no fundo de um vale a que só se acede por uma estrada de terra. Deixámos o carro na aldeia e caminhámos, acrescentando ao trilho dois quilómetros em cada direcção. Tivemos a sorte, no regresso, de apanhar boleia a meio caminho, no jipe de dois senhores muito simpáticos que haviam ido aos seus olivais perceber se as chuvadas tinham feito estragos. Condoeram-se do nosso ar ensopado, trepando encosta acima e ofereceram-nos lugar sem que tivéssemos sequer pedido.

Acompanhando a margem oeste do Rio Côa, o Ermo das Águias marca uma transição importante na paisagem do vale fluvial: aqui terminam os declives suaves que ladearam o rio desde a nascente, e começam as fragas e escarpas agrestes que o encaminharão até à sua foz, no rio Douro. O percurso Cabeço da Juvénia, que, em três quilómetros, sobe e contorna este cabeço rochoso, levou-nos através da paisagem de matos e rocha nua, bosquetes de carvalho-negral e pequenas azinheiras e sobreiros até à escarpa que faz um miradouro natural sobre o rio Côa.

É nestas encostas que voam as aves mais emblemáticas da região, como a águia-real, a cegonha-preta e o grifo. Passámos também por antigos cortelhos e muros de pedra, remanescentes do pastoreio que era feito neste lugar.

Quando já estávamos a dar a volta ao cabeço, de volta ao vale por onde entráramos, avistámos uma manada de cavalos Sorraia, calmamente a pastar na encosta oposta. Muito felizes por mais este encontro, continuámos pelo trilho, que nos aproximava, mas ainda ficava bastante afastado de onde eles estavam. Percebemos, entretanto, uma qualquer interacção entre alguns dos cavalos dessa manada com outros que estavam mais afastados. Corriam uns para os outros, em círculos que se moviam na direcção para onde nos levava o trilho. Querendo manter a distância aconselhada nos cartazes, fizemos parte do caminho para trás, para voltar por onde subíramos, em vez de fazer o trilho circular, e chegar à entrada de forma segura e responsável para com os animais. Deixámos de os ver durante um bocado, mas demos com todos quase de frente. Haviam seguido na mesma direcção geral que nós e continuavam a galopar em círculos, uns atrás dos outros, às vezes parecendo enfrentar-se, às vezes parecendo que paravam a observar-nos. Confesso que naquele primeiro momento mais próximo (que mesmo assim mantinha os cinquenta metros) em que os vi a cavalgar, temi um pouco que se assustassem connosco e reagissem de maneira imprevisível. Parámos a avaliar o comportamento e após perceber que estavam na sua vida, seguimos calmamente o nosso caminho mantendo a distância, enquanto eles cavalgavam encosta acima para longe de nós. Depois do susto inicial, senti um grande privilégio por poder testemunhar aqueles animais lindos interagindo entre si de forma tão livre e natural.

Entretanto, a tarde já ia avançada, a chuva piorara e estávamos bastante molhados. Queríamos ter feito também o percurso da Cascata de Gaiteiros, na zona sul da área protegida. Era mais curto e fácil, mas decidimos deixar para uma próxima visita com melhor meteorologia.

O fim de tarde foi passado no quentinho da Casa da Cisterna, a olhar por cima dos telhados de Castelo Rodrigo com um livro nas mãos, seguido de um reconfortante jantar caseiro. É uma guesthouse onde me sinto muito em casa, tendo já organizado fins de semana no Vale do Côa onde foi a nossa base e é sempre um prazer voltar.

Dia 4: Serra da Estrela – O Mondego e o Queijo

Alojamento: Hotel da Vila, Manteigas

Chamam-lhes Passadiços do Mondego, mas, felizmente, o trilho de doze quilómetros que se percorre ao longo das margens do Mondego e seus afluentes, não é todo em passadiços de madeira. Estes existem para permitir o caminho em zonas que seriam intransponíveis, ligando os caminhos das antigas fábricas de lanifícios e de produção de eletricidade que se localizavam junto ao rio e que foram mantidos e/ou recuperados. Sou, normalmente, avessa aos passadiços, mas neste caso e com excepção da escadaria de acesso na entrada de Videmonte, pareceu-me uma boa forma de habilitar o trilho.

Tínhamos a entrada comprada havia já umas semanas, mas entre a altura do ano que era e a meteorologia desses dias, não teríamos tido problemas em fazê-lo no momento. Cruzámo-nos somente com outro casal, nas quatro horas que nos tardou a percorrer o caminho. Deixámos o carro na entrada da Barragem do Caldeirão e apanhámos um táxi para Videmonte, resolvendo logo a logística de trilho linear.

O percurso acompanha então o vale encaixado por onde corre o Mondego, saltando entre margens mediante pontes, algumas suspensas.

A presença da água é constante, passando por várias cascatas formadas pelas ribeiras afluentes. Naquele dia, corriam com uma força impressionante. Apesar dos aguaceiros frequentes, tivemos também abertas de sol que realçavam a imponência das escarpas, brilhantes contra um céu dramático.

A porção de caminho que passa pelo Meandro do Alto Mondego, seguindo depois por uma imponente e alta levada, que transbordava em cascatas, foi o cúmulo da água e da beleza. A paisagem alternava entre estas vistas abertas e o aconchego dos bosques de carvalhos e castanheiros, junto aos antigos engenhos dos lanifícios.

Quando chegámos aos quintais que rodeiam o rio em Vila Soeiro, junto à medieval Ponte da Mizarela, tudo brilhava em verde molhado. Na subida final, a mais longa e empinada, até à Barragem do Caldeirão, tínhamos agradecido algumas das nuvens das horas anteriores, mas pudemos olhar para trás no Miradouro do Mocho Real e apreciar, com a luz do fim de tarde, o impressionante caminho percorrido até ali.

Conduzimos depois da vertente nordeste para o coração da Serra da Estrela, Manteigas. Empanturrámo-nos num jantar todo à volta de um dos ex-líbris da região, na Queijaria de Manteigas.

Curado, amanteigado, picante, de ovelha, de cabra, misto, em croquetes e rissóis, com bacalhau e camarões, pincelado com doce de abóbora e figo, o queijo da serra nas suas várias formulações foi a segunda estrela da Estrela, no fecho desse primeiro dia dedicado à serra que iríamos finalmente ver nevada.

Dia 5: Serra da Estrela – Vale Glaciar do Zêzere

Alojamento: Pousada da Juventude das Penhas Da Saúde

Depois de várias visitas que nunca chegaram a tempo, ia ser nesta, que nem fora programada para tal, que íamos apanhar a serra com neve. Estávamos radiantes, mas também nos trocava os planos. A ideia havia sido fazer a rota do Maciço Central (PR5 MTG) pelo Vale Glaciário da Candeeira, mas nevado e molhado como estava seria irresponsável.

A sensação agridoce rapidamente passou só a doce, ao subir pela nacional 338, Vale Glaciar acima, vendo o Zêzere correr a toda a velocidade, as encostas a passar a branco a nosso redor e o Covão da Ametade coberto de neve.

Antes disso, pela manhã, caminháramos pela “Estrada dos Covais”, um caminho de terra apoiado sobre um muro de pedra que se vislumbra nas curvas da encosta.

Coincide em parte com a Rota do Carvão, mas continua, depois desta virar para a Nave da Mestra.

É um remanescente de uma estrada construída para uma barragem que não chegou a acontecer, no Vale da Candeeira e é, como bem lhe chamou o Rui Ribeiro do Portugal Outdoor, uma magnífica passarela sobre o Zêzere, que “envergonharia muitos desses passadiços milionários que por aí andam a ser construídos, mas sem necessidade de qualquer investimento. Bastava limpar o mato que quase impede chegar ao final da estrada…”. O post dele tem 5 anos, e o “quase” já virou impedimento efectivo. A densidade de giestas era tal que tivemos de dar meia volta antes de chegar ao fim e é realmente uma pena.

Foram 10 quilómetros, cinco em cada direcção, com vistas incríveis para o vale e o primeiro avistamento dos topos já nevados. É um caminho fácil, acessível e que deveria ser muito mais cuidado e divulgado.

Do Covão da Ametade para cima, entrámos num conto de fadas invernal. A estrada estava limpa, mas ladeada de neve, os telhados e varandas nas Penhas da Saúde cobertos de branco. A estrada para a Torre tinha estado cortada, mas já se permitia a passagem, então decidimos aproveitar a aberta. As previsões para o dia seguinte não eram animadoras.

Ainda pudemos ver o vale glaciar e os cântaros dos miradouros, mas quando chegámos lá acima o nevoeiro fechara completamente.

Jantámos no daSerra, onde nunca havíamos estado. Sem ser memorável, foi agradável. A equipa foi simpátiquíssima e o espaço é acolhedor. Contaram-nos que durante muito tempo foi o edifício do spa do Hotel Luna. É engraçado pensar que o bar, todo em madeira, do piso superior, costumava ser a sala de massagens.

Dia 6: Serra da Estrela – Penhas da Saúde

Alojamento: Pousada da Juventude das Penhas da Saúde

As previsões para esse dia eram agrestes e já atingíramos o ponto de saturação de andar à chuva. Tínhamo-nos conformado com um dia tranquilo de leitura a ver a neve lá fora e duas refeições nos nossos preferidos das Penhas da Saúde. Mas, depois do pequeno-almoço, o sol deu o ar da sua graça, ainda que tímido, e decidimos calçar as botas e arriscar ir até à Lagoa do Viriato, pelo pedacinho do trilho da Varanda dos Pastores que fica encostado à aldeia.

O trilho estava coberto de branco, com os arbustos e as árvores a fazer bolhas de verde. A neve estalava e cedia debaixo dos nossos pés e sentia-se aquele silêncio abafado do nevoeiro, que ia e vinha em rolos montanha acima. Ao chegar à barragem que forma este lago, já chovia de novo, mas não nos arrependemos de ter saído. A vista da neve e das montanhas espelhadas na água, que parecia mercúrio com aquela luz, era incrivelmente bonita.

Voltámos pela estrada para o quentinho da Pousada e já só saímos para almoçar e jantar. Entre um e outro, um livro, um filme e uma sesta.

Foi, portanto, o dia em que caminhámos menos e comemos mais. O Varanda da Estrela e a Casa do Clube são dois restaurantes do mesmo grupo, com conceitos ligeiramente diferentes. Têm em comum a qualidade, o uso de ingredientes da região e uma grande garrafeira.

No Varanda da Estrela fazem pratos mais tradicionais, na Casa do Clube fundem receitas tradicionais com outras inspirações e as doses são mais à base de petiscos para partilhar. É tudo delicioso. Almoçámos no primeiro e jantámos no segundo, saindo a rebolar dos dois.

Dia 7: Da Estrela à Lousã

Alojamento: Vale do Ninho Nature Houses

De uma serra à outra não vai muita distância, mas há muito que ver pelo caminho. Mais quando nevou durante a noite e acordámos com um ainda maior manto branco a brilhar contra o céu azul.

O caminho mais curto seria descer pela Covilhã, mas decidimos subir de novo à Torre e descer pela encosta oposta da Estrela, porque queríamos aproveitar melhor aquela paisagem luminosa. Saindo em quase todos os miradouros, espreitámos todas as vistas com sorrisos de crianças contentes e, lentamente, lá nos afastámos da neve Estrela abaixo, em direcção à Lousã.

A ideia foi sempre encontrar caminhos pelo caminho. A Lousã era o destino, mas a caminhada do dia foi no concelho de Tábua. Fizemos o PR3 – Rota das Pontes, um trilho circular de 14 quilómetros que começámos na Praia Fluvial de Vale de Gaios. Pelo Trilho dos Gaios, acompanhámos o rio Cavalo até à Ponte Romana de Sumes. Esta é a parte mais famosa da rota. A fama vem-lhe dos passadiços coloridos que pontuam parte dos três quilómetros de trilho que acompanham o leito deste afluente do Mondego, ao longo do Vale de Gaios, mas o caminho é lindo independentemente deles.

Passadiços parece ser um tema recorrente deste texto, porque é um tema recorrente das minhas conversas sobre caminhadas. Têm surgido por todo o lado como atractivos turísticos sem que, aparentemente, se pense muito sobre o seu impacto e real valor. Adiante. Estes estavam colocados somente em porções do caminho que faziam sentido, para permitir ou facilitar a progressão. O trilho faz-se também aproveitando caminhos rurais e acompanhando levadas, passando por antigos moinhos de água e as cascatas formadas pelas barragens criadas para desviar a água para estes.

Sem os ditos passadiços, não seria possível caminhar, e até pedalar, tão próximo do rio, na sombra do frondoso bosque e por cima de enormes penedos graníticos cobertos de musgo. Nem perceber a forma como o rio Cavalo “desaparece” debaixo destes e dos nossos pés, enquanto os contornamos facilmente sem nunca deixar de o ouvir. O único reparo a fazer serão as cores brilhantes, claramente a gritar por posts de Instagram mais que pela apreciação da natureza.

Subimos depois até à aldeia de São Geraldo e, monte acima e monte abaixo, atravessámos várias “florestas” de eucalipto. A diferença em beleza e frondosidade para a diversidade de árvores do Vale de Gaios pesava até nas pernas, mas os caminhos, como a vida, nunca são uma coisa só. Do alto do Lajedo, onde se instalou um baloiço, via-se bem a aldeia da Várzea, que atravessámos depois. A descida que os liga está repleta de penedos a que a erosão deu formas variadas. Alguns, como o Arco da Moura, com direito a nome próprio. Depois da Várzea passámos por mais uma zona de antigos moinhos de água, os Moinhos da Quinta da Moenda, muito característicos da região, e outra plantação de eucaliptos, infelizmente também já característicos.

Ainda assim, quando chegámos de volta a Vale de Gaios, mais rapidamente e mais descansados que o que prevíramos, trazíamos um saldo positivo em beleza e prazer.

Chegámos a Ferraria de São João e ao nosso alojamento já de noite. Havíamos sobre-estimado as estradas e acessos para chegar àquela aldeia da Serra da Lousã, mas fomos muito bem recebidos pelos fofíssimos cães das casas do Vale do Ninho. Instalámo-nos e fizemos o jantar na nossa casinha, já a sonhar com o pequeno almoço no terraço na manhã seguinte.

Dia 7: Serra da Lousã

Alojamento: Vale do Ninho Nature Houses

O planeamento dos tempos e lugares na Lousã saiu-nos todo ao lado. Mas isso só nos fez querer voltar, para preencher todas as lacunas do que ficou por ver e fazer. Neste dia, havíamos decidido fazer a PR3 – Rota da Levada, uma circular de 11 quilómetros que começa em Candal e liga várias das Aldeias do Xisto. E também decidimos começar a manhã com calma, no nosso ninho em Ferraria de São João.

Saudados efusivamente pelo Caju e o Snoopy mal abrimos a porta do terraço, recebemos o enorme cesto para o pequeno-almoço das mãos do Pedro e ficámos por ali tranquilamente a desfrutar das delícias e da vista. Só já no carro percebemos bem a distância entre Ferraria e o Candal. Começámos a caminhar já passava das onze da manhã.

Fizemos o trilho no sentido oposto ao recomendado. Tendo em conta a hora, que queríamos almoçar no Talasnal e que preferíamos atacar os maiores desníveis de altimetria logo no início da caminhada, descemos à bruta pela Ribeira do Candal, empinando depois encosta acima até à levada da Central da Ermida.

O bosque diverso dessa primeira parte do caminho, que segue junto a muros de moinhos e propriedades abandonadas, contrasta com a invasão de acácias e pinheiros que vimos mais adiante.

Ziguezaguear a meia encosta pela levada foi um prazer. Chuviscava, mas não o suficiente para que o caminhar sobre a pedra se sentisse inseguro. Os verdes brilhavam e o túnel de árvores abria ocasionalmente para mostrar a face oposta do vale.

Quando desembocámos na base da encosta onde se empinam as casas de Talasnal, já chovia a sério. Subimos entre-muros, pelos socalcos dos antigos terrenos agrícolas que rodeavam a aldeia, já em modo missão, para alcançar as ruas estreitas das bonitas casas de xisto.

Passava da uma da tarde e conseguir mesa para almoçar a um sábado revelou-se difícil. Teria sido previdente reservar. Fica a dica. A dificuldade resolveu-se com uma chanfana no Retalhinho. Prato único, neste pequeno restaurante que é mais café e loja de produtos da região com uns doces de castanha caseiros deliciosos, que, talvez por ficar meio escondido, não tinha ninguém quando chegámos.

Enquanto comíamos choveu e fez sol intermitentemente. Já passava das três quando acabámos. Olhando os quilómetros que faltavam, o tempo que tínhamos até ser de noite e a vontade de enfrentar novos aguaceiros, decidimos que não era razoável tentar completar a rota. Decidimos mudar de trilho e fazer o caminho até ao castelo da Lousã, passando pela Aldeia de Xisto de Casal Novo. Eram apenas dois quilómetros e meio. Pedimos o contacto de um táxi no restaurante, combinámos com ele que nos apanharia no parque da praia fluvial da Senhora da Piedade, por baixo do castelo e nos levaria de volta ao carro, em Candal. Resolvida a logística, arrancámos pela PR 2 – Casal Novo, baixando até à Ribeira da Vergada e as suas cascatas e subindo pela encosta oposta, que dava vistas lindas para Talasnal, as casas de xisto destacando-se montanha acima por entre as árvores.

O caminho para Casal Novo, e desta aldeia, descendo a pique, até ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, na base do Castelo da Lousã é estranho. Não sei se foi pós-incêndio ou razia de cortes de plantações de árvores, mas aquela encosta está tomada pelas acácias. Mas tomada a uma escala que nunca tinha visto. Faz um bosque denso de troncos de diferentes grossuras e inclinações, apenas daquela espécie invasora, claramente fora de controle. Só chegando ao caminho empedrado, perto do santuário e do vale encaixado da Ribeira de São João, é que se começam a ver uma flora mais variada.

O caminho dá umas vistas engraçadas para o castelo e o santuário, e esta chegada salva um pouco a beleza do lugar, mas confesso que fiquei estupefacta com a aparente falta de cuidado com aquela invasão.

Dia 7: Ferraria de São João e o regresso a casa

A escolha de Ferraria de São João e as Vale do Ninho Nature Houses como alojamento nesta (breve) passagem pela Serra da Lousã não foi casual. Lera, em 2020, o texto que o meu amigo Filipe Morato Gomes escreveu para o livro #EuFicoemPortugal, onde falava sobre a aldeia e o belo esforço comunitário que foi substituir eucaliptos e criar uma Zona de Proteção de Aldeia (ZPA). Foram plantadas árvores autóctones e criados pontos de água, permitindo salvar vidas em caso de fogos florestais como o que atingiu a região no dia 18 de junho de 2017. Também sabia que um dos responsáveis pelo Vale do Ninho, Pedro Pedrosa, nome grande do outdoor em Portugal, era um apaixonado pelo BTT. Dotou as casas de bicicletas, oficina e tudo o necessário para receber ciclistas, e foi um dos impulsionadores do Centro Cyclin’Portugal que está na entrada da aldeia e de onde partem vários percursos de bicicletas. Há anos que queria vir visitar.

No nosso planeamento optimista, achámos que ainda conseguiríamos fazer uma pedalada. O Pedro chegou a deixar-nos as bicicletas preparadas, mas o tempo não chegou para tudo. Voltaremos, com mais tempo e em duas rodas, seguramente.

Na última manhã, depois de ir saudar os dois burros da casa, demos uma volta rápida a pé por Ferraria de São João, que não chegáramos a ver com luz do dia.

Acompanhados pelo Caju, pelo Snoopy e pela Lhasa, caminhámos até aos sobreiros centenários, que protegeram a aldeia no grande fogo de 2017 e serviram de inspiração para a ZPA.

Os carvalhos, sobreiros e medronheiros juvenis plantados entretanto já se vêem a despontar no perímetro da aldeia.

A última paragem antes de voltar a casa foi nas Fragas de São Simão. Ficava (quase) em caminho e queríamos ir espreitar aquele acidente geológico impressionante.

As bancadas quartzíticas elevam-se dezenas de metros, quase na vertical , deixando uma pequena abertura por onde passa a Ribeira de Alge. Nesta zona está a praia fluvial, no parque da qual deixámos o carro, caminhando ao longo da ribeira até à ponte que está mesmo de frente para essa fenda na pedra.

Com o que chovera na semana anterior, a água corria com força e notavam-se os ramos e troncos de árvores arrastados pelas correntes, mas, a julgar pela limpidez da água mesmo naquelas condições, imagino que seja uma maravilha para estar de molho no verão.

Depois dessa breve paragem fizemo-nos à estrada com a sensação de dever cumprido em deslumbre e sabor, no périplo a que nos havíamos proposto. Mais uma vez, para além da descoberta de caminhos novos e paisagens apaixonantes, tínhamos acrescentado lugares para voltar e conhecer melhor à, já longa, lista de desejos. Mais comida e mais serras num futuro que se quer próximo.

2 thoughts on “A Comida e as Serras

  1. Relatos inspiradores, bonitas fotografias, e mesas que nos deixam a salivar… tudo excelentes motivos para fazer a mala e sair a descoberta.

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