Como é que se resumem quatro meses de viagem na América do Sul num só texto? Fiz esse exercício durante a escrita do meu livro, que vai devagarinho, mas vai. Aqui fica, como aperitivo e bónus, para os meus leitores habituais.








Dessa viagem deixo um resumo, porque esse não é o tema deste livro, mas essa não é uma viagem inócua. Tem de ficar registada, por primeira, por faísca, por plantar a segunda semente do resto da minha vida, até hoje. A semente do ir, da estrada, do desconforto que aceitamos com um sorriso porque o deslumbre do descobrimento vale sempre mais que as centenas de horas de rabo quadrado em transportes atulhados. Olho para esta viagem com um sorriso de troça a mim mesma. Era tão inocente. Uma viajante tão diferente. Tinha chegado à Argentina com um malão de rodinhas enorme, cor-de-rosa. Nem mochila tinha. O primeiro passo para essa viagem foi irmos comprar uma mochila de 60 litros para dividir. O Nuno tinha outra de 40 e foi com essas duas que viajámos aqueles três meses e meio. Foi ali que aprendi o desapego, que era muito mais capaz de me adaptar do que pensava, que o movimento me fazia feliz.
Cinco anos mais tarde, foi essa viagem que me inspirou a ser líder de viagem, o meu “emprego” até hoje. Fui desfiando o novelo das actividades e conexões à medida que ia vivendo, e as portas, ou as janelas, foram-se sucedendo em degraus de realização sucessivos. Mas naquela altura não sabia de nada disso. Só fui.
Começámos por ir para sul. América abaixo, antes de seguir América acima. A Patagónia chamava. De autocarro em autocarro (com excepção de um voo de hora e meia entre Comodoro Rivadavia e El Calafate no avião comercial mais pequeno onde alguma vez andei) contornámos em três semanas o enorme extremo sul da América do Sul.
Três dias de campismo na Península Valdés, na zona mais a norte da costa Este, deram-nos a visão de baleias francas com as suas crias, colónias enormes de lobos marinhos preguiçosos estendidos e a rebolar ao sol, pinguins de Magalhães a chocar ovos a dois passos de nós, e orcas fora de temporada, em baías azul-esverdeado rodeadas de falésias escarpadas e praias de areia laranja. Nunca esquecerei os atardeceres cor de fogo, sentada atrás de uma rocha que protegia do vento gelado, enquanto ouvia o apito inconfundível da água a ser expelida pelos respiradouros das baleias, seguido da sombra das suas barbatanas a contra-luz.






Três dias, dois autocarros, um voo e uma noite de hostel depois, chegámos a El Calafate. Chamou-nos o deslumbre do glaciar Perito Moreno. Sorte, início de temporada ou outra época do turismo mundial, tivemos o privilégio de o admirar com muito pouca gente à volta. Lembro o meu espanto ao ver a massa de gelo encaixada entre montanhas, a “flutuar” sobre o Lago Argentino. A surpresa do ruído gutural dos desprendimentos, como se a Terra se queixasse.

Os diferentes tons de branco e azul, as diferentes formas, os reflexos na água quando o sol conseguia penetrar entre as nuvens. Mas El Calafate foram também passeios tranquilos nas margens da Laguna Nimez, junto à cidade, as centenas de pássaros, as dezenas de cores. Aqueles horizontes intermináveis de onde se destacavam montanhas com picos nevados que se tornaram o habitual, mas que eram ainda assombro.

Fosse na altura a pessoa que sou hoje, teria provavelmente passado muito mais tempo em El Chalten. Ainda assim, e não sabendo metade da mística montanheira desta aldeia, aproveitámos o dia e meio que lá passámos a fazer o que por lá se faz, caminhar. O dia em que saímos no autocarro nocturno para Esquel, fizemos o trilho de 20 quilómetros que vai e volta da lagoa Capri e do “miradouro” para o Fitz Roy, trepando pelas várias mudanças de cenário que nos iam deixando consecutivamente boquiabertos.

Não lhe consigo determinar uma origem específica, mas sei que o meu amor pelas caminhadas na natureza cresceu exponencialmente nessa viagem. Ao fim desse dia, esbodegada, de pernas para o alto em frente a uma Quilmes fresquinha, vi a felicidade que era já muita aumentar, quando a nuvem que todo o dia cobrira a mítica agulha do Fitz Roy passou a um fiapo que o vento afastou.

Seguimos Patagónia acima pela Ruta 40, a mítica estrada que atravessa o país de norte a sul. De El Chalten a San Martin de Los Andes, foram mais de 1500km de autocarro em autocarro, com poucos troços alcatroados. Viagens de 25, 20, 12, 10 horas de estepe patagónica a perder de vista, rectas intermináveis, cinzentos, amarelos torrados, o azul do céu e picos nevados que ora estavam ao lado, ora se perdiam no horizonte. Parando uns dias de cidade em cidade, de parque natural em parque natural, passaram mais duas semanas em espanto contínuo.
Em Esquel, no Parque Nacional Los Alerces com os seus bosques de larícios (Pinus Negra) passei por lagos e rios glaciares de um verde que nunca tinha visto. Em El Bolson, subimos ao Cerro Piltriquitron e dormimos no refúgio. 1500 metros em 10 quilómetros. Três horas de subida constante que, hoje, já repeti dezenas de vezes em montanhas diversas, mas que foram uma estreia naquelas andanças. Lá do alto, ao pôr e nascer do sol, com a vila e o verde aos pés e os picos nevados a toda a volta, enquanto a salamandra crepitava, folheei revistas de montanhismo, reflectindo que começava a perceber melhor os alpinistas.

Bariloche, a “Suíça da América Latina”, foi demasiado Suiça, em aspecto e preço, para o nosso gosto. Fugimos rapidamente para os parques e lagos mais a norte. Fazendo a Rota dos Sete Lagos nos autocarros locais, ficámos em Villa La Angostura, o Parque Los Arrayanes e San Martin de Los Andes.

Tudo encantava e pedia mais tempo, mas o orçamento era escasso e a Bolívia e o resto da viagem já nos chamavam. Parámos em Córdoba três dias para repor energias e refazer as mochilas e continuámos para a fronteira.
De Tupiza, já na Bolívia, partimos na viagem de 4 dias que leva ao Salar de Uyuni. Em pleno altiplano andino, quase sempre acima dos 4000 metros, percorremos estradas sinuosas em dois jeeps que carregavam 8 turistas, dois condutores, uma cozinheira, as botijas de gás e a comida que íamos precisar. Vimos desfiladeiros rochosos enrugados e planaltos ventosos. Terraços em socalcos pedregosos e montanhas que pareciam ondas suaves. A Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Alvaroa foi todo um deslumbre com a sua paisagem desértica com lagoas de cores inacreditáveis, rochas de distintas formas, montanhas-vulcão que recortavam o horizonte interminável de um azul que só o ar rarefeito da altitude consegue. Pareciam pintadas, como se alguém tivesse decidido precisamente onde colocar o branco, o laranja, o castanho, o azul eléctrico, o verde-água, o vermelho, o ocre. Como se fossem aquelas garrafinhas com desenhos feitos de areia de diferentes cores, mas vivas, com flamingos enormes a levantar em bando à nossa frente.





À noite, dormíamos em casinhas-refúgio com tijolos à vista, aos 6 por quarto, dentro dos sacos-cama e debaixo de vários cobertores pesados. Comíamos com todas as camadas de roupa que tínhamos, claramente mal preparados para o gelo das noites àquela altitude, mas muito felizes com as paisagens que todos os dias se superavam em encanto. Chegar a Uyuni e ao famoso salar, mais que destino, foi só o culminar de dias de espanto. O melhor culminar, com o sol a nascer no horizonte branco sem fim.

Potosi retirou-nos a respiração, literal e figurativamente. As ruas de calçada cinzenta empinada, a 4090 metros de altitude não se coadunavam com os nosso pulmões acostumados ao nível do mar. Nunca sofremos de mal de altitude, mas arfámos muito durante esses dias.


A visita às minas impregnou-me na memória o nó na garganta que senti, ao viver por uns minutos a claustrofobia daquelas paredes apertadas, com o ar escasso e empoeirado que os mineiros sentiam todos os dias. Nunca esquecerei aquele rapaz, a sua bochecha inchada de folhas de coca, de lágrimas nos olhos, enquanto o seu pai falava da dureza daquele ofício e de como toda a família tinha de ajudar. Ou daquele outro senhor, magríssimo, que me lembrou uma aranha de pernas longas, a picar uma parede de cócoras, enquanto nos explicava, pelo contrário, que não queria que os seus filhos passassem pelo mesmo que ele, e que por isso trabalhava mais, enquanto eles estudavam.
Havíamos planeado passar dois dias em Sucre, cidade fundadora da Bolívia. Mas, a tranquilidade daquelas ruas com edifícios caiados e pátio escondidos, e o cansaço das semanas anteriores, estenderam essa estadia para quatro. Fizemos pouco mais que passear calmamente pela capital constitucional do país, comendo várias vezes numa esplanada com vista para as telhas laranja dos edifícios históricos, matando saudades de saladas frescas e lendo pela tarde fora.



Em La Paz, ficámos doentes à vez. Eu andei com febre à chegada, o Nuno a correr para a casa de banho à despedida. No entretanto, não sabíamos bem o que pensar da capital boliviana. Escrevi: “É uma relação amor-ódio. Espalha-se a perder de vista montanha acima e montanha abaixo, com edifícios coloniais misturados com prédios modernos e casas de adobe na periferia. Há homens de negócio de fato completo e cholitas com traje indígena, trânsito caótico e a visão constante de um pico nevado. Não percebemos como nos sentimos aqui.”

Entre estadias, fomos até Coroico, nas Yungas, zona de transição entre o planalto andino e a selva amazónica. A três horas de La Paz, por uma estrada de montanha linda (que substitui a famosa “Ruta de La Muerte”, já só feita de bicicleta ou por condutores e turistas com desejos suicidas), foi o antídoto perfeito para a confusão.

Passámos uma noite e um dia entre o verde da floresta e das plantações de cacau e coca, fizemos uma caminhada guiada de três horas e saímos retemperados. Depois La Paz fez o favor de nos deitar abaixo outra vez, antes de seguirmos para Copacabana.
A viagem parecia das mais tranquilas que fizeramos até aí. Quatro horas durante o dia, uma estrada alcatroada, quase recta, um autocarro que levava galinhas, mas toda a gente sentada. Só que, mais ou menos a meio, numa inspecção do exército como tantas que apanháramos em vários caminhos, começámos a ver uma das passageiras muito aflita a pedir para colocarmos algo debaixo dos nossos assentos. Corria de um lado ao outro do corredor, tirando sacos com bidões debaixo de uns bancos para pôr noutros. Quando saímos todos para fora do autocarro, os oficiais começaram a descarregar dezenas daqueles bidões de gasolina enquanto falavam com a senhora e a sua família. Quando abriram o porta bagagens, por baixo das malas e mochilas encontraram várias bilhas de gás. A senhora chorava, os militares falavam em contrabando, os outros passageiros estavam indignados com os militares. Um deles sugeriu que se pegasse fogo a metade a ver se lhes devolviam o que sobrasse. Nós estávamos calados e estupefactos, a pensar que vínhamos sentados alegremente numa potencial bomba andante. Passado uma hora voltámos à estrada, sem a carga e sem a família, que ficou com os militares. O último pedaço de caminho inesperado foi a travessia do estreito de Tiquina. Copacabana fica já numa ilha, no Lago Titicaca. O autocarro seguiu num barco com todas as nossas coisas, e nós noutro, mais pequeno. Depois da travessia, juntámo-nos outra vez. Tudo aquilo era esquisito, mas tudo correu inesperadamente bem. Chegámos a Copacabana com duas horas de atraso, às oito da noite, no meio de uma festa onde víamos cholitas bêbadas a ser transportadas para fora do recinto em carrinhos de mão. Pareceu-nos um lugar estranho.
Copacabana foi só um ponto de passagem e acesso à Isla del Sol, a maior do enorme Lago Titicaca. Ficámos dois dias, embasbacados com a beleza e a tranquilidade daquele pedaço de terra dedicado ao deus Sol, sagrado para os antigos Incas e habitado pelos indígenas Quechua e Aymara actuais. O terreno acidentado fazia ondas que pareciam animais deitados voltados para o azul transparente das águas do lago. Caminhámos o trilho que atravessa a ilha de norte a sul, passeámos por vários sítios arquelógicos, relaxámos nas suas praias na companhia de porcos castanhos e vimos dos céus mais estrelados e dos pores do sol mais saturados que alguma vez presenciáramos. Um céu pintado de rosa forte a sair das nuvens densas, os contornos da ilha em contra-luz, o lago um espelho de metal líquido.



Foi com um misto de pena e entusiasmo que saímos de volta a Copacabana, em direcção ao Peru. Um barco e um autocarro levaram-nos ao posto fronteiriço e, depois de carimbados os passaportes sem grandes problemas, seguimos para Puno. A ideia era apenas passar a noite, para quebrar a viagem e visitar uma das ilhas flutuantes dos Uros. Puno era uma cidade horrível. Felizmente, chegámos mesmo a tempo de sair numa das últimas visitas guiadas do dia. Era a hora perfeita, com a luz baixa e dourada a exacerbar as cores da totora, a cana flutuante que forma as ilhas onde estes indígenas vivem e da qual fazem as suas casas e barcos. A visita deixou-me sentimentos contraditórios. Gratidão por poder testemunhar um modo de vida tão peculiar e uma paisagem tão bonita, alguma pena pelas condições aparentemente precárias e algum pudor por me parecer tudo demasiado ensaiado para os turistas, de que eu fazia parte. Foi uma visita demasiado breve para poder opinar verdadeiramente, mas isso foi o que senti no momento.



De Puno a Arequipa recordo a confusão dentro do autocarro e as dezenas de vendedores que começavam os seus discursos com variações semelhantes de frases com pelo menos dois adjectivos por substantivo: “Muy buen, muy cordial, muy descansado y tranquilo dia. Desde ya pido mil perdones por molestar su agradable y tranquilo viaje…”
Já em Cusco, esperávam-nos decisões difíceis. Depois de passearmos nas suas ruas empedradas empinadas e apreciarmos a arquitectura colonial melhor preservada que havíamos visto até então, começámos a tentar perceber como chegar a Machu Picchu. O Inca Trail estava fora de hipótese, por falta de orçamento e porque, na altura, tinha listas de espera de meses. A única outra hipótese que nos davam as agências de viagem locais e toda a gente a quem perguntámos era apanhar o comboio para Águas Calientes e daí subir. Só que o comboio era mais caro que a entrada. Tudo junto, gastaríamos mais de 150 dólares cada um, o que nos dava para viajar por vários dias e fazer muitas outras coisas. Tentámos perceber se não haviam autocarros ou qualquer outra maneira de chegar. Soube meses mais tarde que sim, mas, naquele momento, havia muito menos informação online e eu era muito menos traquejada nessas andanças. Então, fomos ao Peru e não fomos a Machu Picchu. Heresia para os acólitos das viagens, mas é o que é. Irei um dia, ou não irei. Não é algo que me apoquente. Cada viagem é a viagem de cada um e não temos, diria até não devemos, ir todos aos mesmos lugares. Se gostava de ter ido? Gostava. Mas não perdi o sono por não o ter feito.



Aproveitámos Cusco, visitámos o complexo arqueológico de Saqsaywaman, a cinco quilómetros da cidade e seguimos caminho rumo a Lima, com uma paragem nas dunas e oásis de Huacachina.

Depois de Lima, sentimos que não estávamos a “sentir” o Peru. Como o Nuno também queria muito fazer o Amazonas e passar o fim de ano em Salvador da Baía com uns amigos, acelerámos a rota, que era o Amazonas inteiro mais uns pozinhos.
Apanhámos um autocarro para Yurimaguas, nas margems do Rio Huallaga, tributário do Maranhão, que por sua vez é tributário do Amazonas. Devia ter demorado 26 horas e demorou 36, devia servir comida e não serviu. Baptizei-o de “autocarro cumbia do inferno”
Chegados lá, já noite escura, apanhámos um tuk-tuk para nos levar até ao porto, com paragem para comprar as redes de dormir que seriam as nossas camas nos 20 dias de barco. Não sabíamos se já haveria barco, se saía no dia seguinte ou só dois dias depois e se poderíamos embarcar nessa noite, mas decidimos tentar, com sorte.
Não estava ninguém para nos receber, mas o barco estava atracado e tinha uma prancha para entrar. O condutor do tuk-tuk disse que não havia problema, que podíamos entrar, montar as redes e dormir e que no dia seguinte nos viriam cobrar. Assim fizemos, um pouco desconfiados, mas agradecidos por não ter de pagar outra noite de alojamento. O barco tinha um convés comprido aberto na proa, onde iria a carga; uma ponte larga, com dois andares abertos nas laterais, onde se penduravam as redes e uns cinco ou seis minúsculos camarotes privados na popa. Fomos para o andar superior. A rede era mais confortável do que tinha imaginado e rapidamente senti que começava a adormecer. Mas, de repente, começámos a perceber movimentos, vozes e gente a circular, homens despidos com toalhas amarradas à cintura. Ninguém se aproximou, mas só pensava na possibilidade daquele ser o barco errado e arrancar para outro lugar qualquer, de aquelas pessoas nos assaltarem ou de sermos raptados. Passado um bocado acalmou tudo, para retomar às 6 da manhã, quando o sol começava a sair. Não preguei olho. Percebemos depois que eram passageiros dos camarotes, primeiro, e a tripulação do barco, depois, a caminho das casas de banho para se ducharem.
Tinham-nos avisado que os horários dos barcos não eram de fiar e, efectivamente, saiu às cinco da tarde em vez do meio-dia previsto. Tudo certo, desde que saísse. Também nos tinham avisado que nem sempre saíam na data suposta. Passámos o dia a ver as manobras de carga e a suar em bica. Sacas e sacas de sabe-se lá o quê, galinhas em caixas e muitas vacas metidas num pequeno curral improvisado encheram o convés.

Outras pessoas, com as suas redes, ocuparam algum do espaço ao pé de nós, mas, por comparação com os outros barcos que apanhámos, fomos tranquilos e à larga.

Fui alternando momentos de gratidão e aborrecimento profundo, nos seis dias e dois barcos que nos levaram de Yurimaguas a Iquitos e daí a Santa Rosa, a tripla fronteira com o Brasil e Colômbia. Vi pôres-do-sol laranja e violeta e azul como nunca tinha visto, mas o cenário ribeirinho – às vezes verde denso, às vezes plano sem vegetação, às vezes com aldeias de casas de madeira e telhados de palha, outras vezes aldeias com mercados lotados e mototáxis- começou a tornar-se repetitivo.


Passámos do rio Huallaga ao Maranhão, que deu origem ao Amazonas sem que desse por isso. O segundo barco era mais pequeno e ia lotado. O barulho era constante: música em volume máximo do bar, bebés a chorar, crianças a correr aos gritos e a esbarrar nas redes, homens a discutir jogos de cartas e o grito dos vendedores que embarcavam em cada paragem “cigarrillos, cigarrillos, cigarrillos”, “periódicos, hay periódicos”, “pollo asado, hay pollo asado señores, polloooo asadoooo“.
As refeições estavam incluídas e eram servidas a horas certas. Arroz de frango para toda a gente. O espaço disponível era pouco mais que a rede e as actividades resumiam-se a ler e olhar borda fora. As conversas com os vizinhos rapidamente se esgotavam. A cada desembarque, as raparigas locais caprichavam na “higiene” e maquilhagem e eu cada vez me sentia mais pegajosa. Havia desistido de tomar banho nos duches ao segundo dia. A água era bombeada do rio, castanho, e tinha visto um cocó flutuante a transbordar do tanque.
O passo de fronteira foi todo um acontecimento. Desembarque periclitante para uma canoa motorizada quase submersa, para chegar ao ilhote do lado peruano onde estava o posto fronteiriço. Passaporte carimbado depois de uma passagem pela polícia para recolher um registo criminal feito no momento sem perceber muito bem como. Nova canoa para Tabatinga, no Brasil, com uma paragem em Letícia, na Colômbia, para deixar outros passageiros. Táxi até ao posto da polícia federal brasileira. Uma hora de espera ouvindo histórias rocambolescas de outros viajantes que, ao contrário de nós, precisavam de vistos. Entrada carimbada no Brasil.
Como tínhamos alguma pressa e pouco dinheiro, queríamos evitar ao máximo escalas nas povoações, entre barcos. Cada viagem teria entre 3 e 4 dias e a nossa ideia era ir mudando para o barco que saísse mais rapidamente. Idealmente no mesmo dia, havendo bilhetes. Era época alta, perto do Natal, e os barcos eram o meio de transporte da maioria da população. Já nos tinham avisado que os barcos iriam em sobrelotação.
Fomos directos ao porto e percebemos que o barco para Manaus saía só no dia seguinte e não era possível embarcar antes. Comprámos os bilhetes e caminhámos até à rua com as três pensões, todas igualmente más. O quarto era um buraco, a casa de banho estava separada por uma cortina e não havia água quente, mas o banho soube-me pela vida. Tabatinga era uma cidade feia, com casas por acabar, lixo pela rua e uma sensação de faroeste condizente com as histórias de ataques de piratas fluviais e narcotraficantes que nos tinham contado no barco.
O embarque foi o mais demorado e caótico de toda a viagem. Mais de duas horas em filas para entrar, com vários controles de segurança. Homens do exército com espingardas gritavam ordens, sacos eram alinhados no chão para os cães farejarem. Na sala ao lado, as mesmas malas eram revistadas manualmente enquanto as pessoas ficavam em fila, braços e pernas estendidos, esperando sua vez.
À nossa frente estava um grupo de quatro amigos austríacos que não falavam uma palavra de português. Não os queriam deixar embarcar, porque os lugares estavam esgotados. Tentavam explicar em inglês que um dos vendedores lhes dissera, quatro horas antes, quando lá chegaram, que deviam comprar bilhetes quando embarcassem. Ajudámo-los na tradução e a fazer pressão ao vendedor que os tinha enganado e conseguimos que embarcassem. Foram nossos companheiros de viagem até Belém.
Os barcos no Brasil eram maiores e com ligeiras melhores condições que no Peru. A comida variou do arroz de frango para o arroz de frango com feijão, um churrasquinho de vez em quando e havia uma espécie de sala de refeições. Também tinham mais espaços comuns com mesas e cadeiras, para poder estar fora das redes. A água do duche continuava a ser castanha, mas havia torneiras de água supostamente filtrada, que fui usando para lavar a cara. Continuei a evitar os banhos.

De cada vez que trocávamos de barco, repetía-se a seguinte rotina para tentar ter um espaço decente: colocar a rede ao lado de uma parede, na primeira fila do lado de fora. Fazer trabalho de equipa com o Nuno e os austríacos para deixar o máximo de espaço possível entre as nossas redes para poder circular entre elas, mas não o suficiente para que outra rede pudesse caber. Era um equilíbrio muito delicado e requeria ficar sentados sobre elas para ocupar o máximo de espaço possível. Ficar lá sentados até ter certeza de que ninguém mais precisava de lugar e convencer um senhor insistente (havia sempre um) de que a sua rede não poderia caber entre a minha e a do meu namorado.
Fizemos Tabatinga-Manaus no N/M Sagrado Coração De Jesus, Manaus-Santarém no V/M Rondônia e Santarém-Belém no N/M Cisne Branco. Durante a navegação, entre refeições, líamos, jogávamos cartas, batalha naval, xadrez e dormíamos muitas sestas, quando o barulho permitia. Os barcos iam mesmo sobrelotados e os brasileiros eram tudo menos sossegados. Os pores-do-sol continuavam incríveis, mas a enorme largura do Amazonas não permitia ver para dentro da fila inicial de vegetação. De quando em vez, avistavam-se as barbatanas de golfinhos de rio e ouviam-se os uivos dos macacos.



Em Santarém, fizemos um desvio até Alter do Chão, para passar o natal. Uma hora de autocarro até essa pequena cidade na margem do rio Tapajós. Sei que hoje é uma cidade muito turística, com prédios na frente ribeirinha, cheia de restaurantes e sombrinhas. Nessa altura, parecia uma aldeia, à beira de uma praia de areia branca e água transparente. Parecia o Caribe, mas era a Amazónia. O nosso quartinho ficava no meio das árvores, a casa de banho partilhada era ao ar livre e nunca um duche me soube tão bem, mesmo partilhando espaço com uma aranha do tamanho da minha mão.

Na noite de consoada tentámos fazer um peixe assado e quase pegámos fogo à cozinha do hostel. Antes da meia noite fomos até um bar na frente ribeirinha e andava toda a gente na rua a dançar e a beber. Senti-me nostálgica pelo natal em Portugal e ao mesmo tempo muito sortuda por estar a viver tudo aquilo.
No troço Santarém-Belém o Amazonas estreitou. A proximidade às margens mostrou-nos duas realidades com que ainda não nos tínhamos deparado. As casas de madeira, aparentemente isoladas, construídas mesmo nas margens, sobre estacas, no meio da selva e as crianças vendedoras, que abordavam os navios em manobras inacreditáveis. Em barquitos de madeira, a remos e, suponho, aproveitando as correntes, aproximavam-se do navio a uma velocidade impressionante e em dois minutos, prendiam a sua canoa aos pneus que estavam pendurados na sua lateral. Enquanto um ficava a segurar a embarcação, outros dois trepavam os dois andares, pulando e vendendo os seus produtos através dos parapeitos. No meio de um grande alvoroço, despachavam palmitos, limas, cajus, camarões secos e tão rápido como haviam subido, desciam e libertavam-se do barco, ficando para trás. Entretanto, outras canoas com famílias inteiras aproximavam-se enquanto alguns passageiros lhes atiravam sacos com roupa. “Têm necessidades” foi a única explicação que me deram.
Chegámos a Belém dia 28 de Dezembro. Fomos directamente ao terminal de autocarros para conseguir passagem para Salvador. Em Alter do Chão havíamos tentado comprar bilhetes online, mas tinha sido impossível. Íamos preocupados, mas conseguimos lugar para a viagem de 30 horas do dia seguinte. Foi à justa, mas conseguimos chegar a tempo do fim-de-ano.
Passámos uma semana na Praia do Forte, na Baía, na casa de férias da família de uma amiga portuguesa. Um luxo que parecia ainda mais luxo, depois desses 22 dias de Amazonas. Um quarto com casa de banho só para nós, piscina, empregadas que faziam as refeições, arrumavam o quartos e nos puseram a roupa imunda a lavar. A única decisão a tomar era qual o cocktail que nos apetecia e a que horas queríamos ir para a praia, que estava à distância de uma passadiço de madeira sobre uma lagoa. Vestimo-nos de branco como todo o mundo, para entrar em 2011 num hotel na praia, demos dezenas de mergulhos, vimos tartarugas a surfar e, numa das tardes, visitámos Salvador. A zona do Pelourinho lembrou-me um Bairro Alto tropical e fez-me ter saudades de Lisboa.

De Salvador ao Rio foram mais 30 horas de autocarro. O nosso orçamento ia já pela rua da amargura, mas aí tínhamos também alojamento. Um estúdio sem cama no Leblon, que era o escritório de um primo afastado do Nuno. Beleza. Dormíamos felizes no chão, comíamos pão com queijo e íamos para a praia. Fomos até Santa Teresa, que adorámos, tirámos as fotos da praxe nos azulejos da Escadaria do Selarom, fomos de festa na Lapa e vimos o Tropa de Elite 2 num pequeno cinema em Ipanema.


Vimos o pôr-do-sol na Pedra da Gávea e na Urca, mas não subimos ao Pão de Açúcar porque o orçamento não chegava. Tentámos ir ao Cristo no último dia e o nevoeiro fechou o transporte.
Andávamos de autocarro e a pé, para escândalo dos primos. Jantámos com eles na sua casa da Gávea e no Jockey Club e quando nos levaram a passear foi até um centro comercial na Barra, para escândalo nosso. Receberam-nos muito bem, mas tínhamos interesses muito diferentes. Sempre a pé, fomos do Leblon ao Jardim Botânico e de regresso, contornámos toda a Lagoa Rodrigues de Freitas, vimos exposições fotográficas de acesso livre e uma peça de teatro baseada no Admirável Mundo Novo num centro cultural em Copacabana.

Quando se viaja por vários meses é normal o cansaço, a saturação da novidade, a vontade de rotinas, de algum reconhecimento do outro. Cansa a apresentação constante, as histórias que se repetem. O entusiasmo da descoberta sobrepõe-se quase sempre a este sentimento, mas ele vai espreitando, periodicamente, fazendo duvidar, espoletando o desejo de voltar para casa. Aconteceu várias vezes ao longo daqueles três meses e meio, mas, ali na Cidade Maravilhosa, à medida que o tempo chegava ao fim, a vontade de que a viagem acabasse esbatia-se na pena que a viagem acabasse. Nunca estamos totalmente satisfeitos.
A última paragem foi Iguaçu. Outro autocarro de dezenas de horas deixou-nos em Foz de Iguaçu e rapidamente cruzámos para Puerto Iguazu, de volta à Argentina. O peso argentino convinha-nos muito mais que o real brasileiro.

Encharcados de chuva tropical e salpicos da força das cataratas, mas em espanto absoluto, fizemos todos os passadiços que levam a todas as quedas de água e miradouros. Vimos tucanos e muitas outras aves que não sei nomear, anfiteatros de água e o vapor da sua força, verde luxuriante por todo o lado.





Voltar aos autocarros da Argentina foi uma benção. Já em jeito de despedidas, fomos a Córdoba buscar as nossas coisas e arrumar a vida que tinha criado nos 8 meses em que lhe chamei casa. O autocarro nocturno para Buenos Aires, de onde partia o nosso voo de volta, demora apenas oito horas. Íamos tão habituados a viagens de 30, que tiveram de nos vir acordar quando já toda a gente tinha saído e estavam a limpá-lo para a próxima viagem.
Eu já tinha estado em Buenos Aires, mas sentia de maneira diferente. Nesses dias, a cidade foi a melancolia do fim de uma aventura, com o desconhecido da próxima ao fundo. Foi o cimentar de um amor e de uma certa maneira de estar na descoberta, na curiosidade de ver o mundo. Foi um ritmo muito mais calmo, em jeito de despedida. Ficámos em Palermo e, na minha memória, havíamos andado essencialmente por ali. As fotos desenganam-me. Voltei a Caminito e a San Telmo, mas parámos muito mais a contemplar os bailarinos, os músicos de rua, os pares das milongas improvisadas.




Caminhámos na sombra dos mausoléus imponentes do cemitério de Recoleta e sentámo-nos em cafés com pinta nas esplanadas de Palermo. Por um lado, parecia somente mais uma paragem na viagem de 4 meses pela América do Sul, que ali terminava. Por outro, sentia o aperto, e também a vontade, de voltar para casa depois de um ano de tantas mudanças. Buenos Aires pareceu-me muito mais bipolar que na visita anterior. Seria, talvez, só eu. Ou seria que, como escreveu Horacio Ferrer sobre a cidade que o adoptou “Ella es una mezcla de amor y tristeza, de algo que duele pero duele lindo”.