Dia Perfeito em Ovar


Em Ovar exortaram-me: Vai Passear!” E eu fui e tive o dia perfeito.


Comecei por aprender que o apodo Cidade-Museu Vivo do Azulejo foi atribuído por Rafael Salinas Calado, o primeiro director do Museu Nacional do Azulejo. Num país de azulejos, a razão para a distinção prende-se com a sua concentração e variedade numa área relativamente pequena. Munida de um mini-azulejo, parti a pé pelo centro histórico da cidade em busca da parede onde o original se encontrava, ao mesmo tempo que aprendia sobre a história de vários edifícios e praças e sobre as diferentes técnicas de pintura daqueles quadrados.

Ia, junto com outros bloggers da ABVP, acompanhada das coordenadoras da equipa de turismo da Câmara Municipal de Ovar, mas é uma actividade que se pode reproduzir em modo independente, adquirindo o kit azulejo no Posto de Turismo ou simplesmente descarregando o mapa.


O revestimento exterior e integral com azulejos remonta à segunda metade do século XIX. No final desse século e início do século XX, a mecanização dos processos industriais e o aumento da procura baixaram os preços de produção, levando a um grande aumento do número de fachadas azulejadas e da variedade de padrões. Esta variedade foi aumentando e acompanhando as tendências ao longo dos tempos, até aos dias de hoje.

Pela cidade podemos distinguir diferentes estilos, do pombalino à arte nova, passando pelos rendilhados de estilo inglês e os murais modernistas do tribunal. Os diferentes estilos contam também a história da cidade. Por exemplo, é atribuída muita da responsabilidade pelo revestimento azulejar das fachadas ao retorno a Ovar dos emigrantes portugueses do Brasil, que terão usado o azulejo como meio de afirmar o seu novo poder social e económico.

Igreja em Ovar


Da Praça das Galinhas à da Républica, passando pela Rua Heliodoro Salgado; do Museu de Ovar à capela de Santo António, pisando a “Rua do Azulejo” e seguindo cidade fora, fomos parando a admirar fachadas, verificando as diferenças entre a estampilhagem, o estampado e o relevo.

Vi os calões pintados da Quinta de São Thomé, os estampilhados da Rua 31 de Janeiro, os estampados do Largo 5 de Outubro e muitos outros exemplos de um uso de azulejo nas fachadas sem paralelo no mundo. Nas casas mais ricas, com elementos decorativos elaborados, mas também nas térreas com apenas uma porta e uma janela, abundavam padrões e cores que davam uma personalidade única a cada fachada. Confesso que esta riqueza me tinha passado completamente despercebida em anteriores passagens pela cidade.

Ovar


Conhecidas ruas e padrões, pus depois a mão na tinta. Na Escola de Artes e Ofícios, usando o método da estampilhagem, pintei um azulejo. O método é relativamente fácil. Diferentes moldes para diferentes cores, usados da cor mais clara para a mais escura, é só ir passando o pincel por cima. Ainda assim, por azelhice minha, consegui esborratar algumas figuras. A próxima tentativa correrá melhor. Foi divertido e ainda trouxe comigo a recordação do momento.

Pintura de azulejo; Escola de Artes e Oficios de Ovar


A Escola de Artes e Ofícios encontra-se no renovado edifício da antiga Fábrica de Papel, no lugar do Casal, junto ao rio Cáster. Para além das oficinas de pintura de azulejo, fazem-se também outras de aprendizagem criativa ao longo do ano, direcionadas a vários públicos. Nas paredes viam-se vários painéis pintados por crianças das escolas do concelho, por exemplo. É também a casa do ACRA | Atelier de Conservação e Restauro do Azulejo de Ovar – um serviço municipal criado para salvaguardar, preservar e valorizar o património azulejar do concelho de Ovar – e tem uma programação cultural variada.

Para mim, o plano perfeito inclui cultura e natureza. De preferência com actividade física à mistura. Em Ovar isso é muito fácil. Depois de uma manhã de história e arte, a tarde foi de ondas e bicicleta.

Sob a orientação atenta da Barrinha Surf School, fomos até à Praia de Silvalde, que apresentava as melhores condições para iniciados nesse dia. São várias e boas, as praias apropriadas para a prática, é uma questão de escolher consoante as condições e a perícia. Então, depois das instruções de segurança e técnica, estávamos dentro de água a tentar por-nos de pé na prancha. Uma hora, alguns pirolitos e caídas desajeitadas depois, e seguindo as dicas preciosas do instrutor Miguel, consegui a sensação maravilhosa de deslizar numa ondinha por alguns segundos. Saí em bom, de sorriso rasgado e corpo cansado. Aquele cansaço bom de sol e sal.

surf na praia de Silvalde


O Leonel e a Marta, da BeCycle, já estavam à nossa espera com as bicicletas, à saída da praia. Ovar tem 60 quilómetros de ciclovias, que eu já tinha pedalado e admirado em travessias anteriores. É muito fácil ser feliz em duas rodas por ali. Nessa tarde fizemos uns tranquilos oito quilómetros. Seguindo a Ecovia do Litoral, chegámos aos passadiços da Barrinha de Esmoriz. Entre o verde e a água, sobre o passadiço, atravessámos esta lagoa costeira de água salobra, separada do mar por uma estreita faixa de areia e vegetação dunar.

Barrinha de Esmoriz

Este é um ecossistema importante, que funciona como habitat para diversas espécies de aves aquáticas e peixes, fazendo parte da Rede Natura 2000. Depois da Barrinha, atravessámos o bonito Parque Ambiental do Buçaquinho, um espaço criado com o objetivo de recuperar e conservar a biodiversidade local, transformando uma antiga ETAR num habitat de elevado valor ecológico. Resultado de um trabalho de restauração ambiental dedicado, o parque trouxe de volta a flora e fauna locais, oferecendo trilhos e infraestruturas educativas e de lazer. Depois de pedalarmos entre os pinheiros, na ciclovia que acompanha a estrada que atravessa o pinhal, virámos de novo para a costa chegando a Cortegaça. Daí foi um pulinho até Esmoriz no recém-inaugurado paredão marítimo. Soube a pouco e confirmei o prazer que é pedalar por aquela zona.

Paredão de Esmoriz - Cortegaça


Fechando o dia com lula de oiro, jantámos as ditas n’O Tasco. Casa tradicional do Furadouro, com cinquenta anos cumpridos este ano, tem como lema “Comidinha simples, honesta, com alma e tradição.” Confirmo. São famosos pelas lulas grelhadas e o peixe fresco na brasa. Comemos as lulas e estavam no ponto. Saborosas e com a textura certa. A Ana Preta, sobremesa típica especificamente do Furadouro, já tinha acabado.

À noite, embalada pelo cansaço gostoso de um dia activo, pensei no perfeito que fora e como, além de aprender e experimentar coisas novas, tinha acrescentado à minha lista de vontades um rol de boas razões para voltar a Ovar.

***

O dia perfeito pode ser montado com muitas outras actividades incríveis. Pode até fazer-se um fim de semana perfeito, para todos os gostos. Tenho duas preferidas:

1) Se o surf parecer demasiado, mas ainda assim quiserem água, um passeio de SUP pela ria de Aveiro é a alternativa ideal. Águas calmas, paisagem tranquilizante e actividade física moderada. Falem com a Redanimal surf, que vos guia atentamente pelos canais mais bonitos.

2) Não se pode ir a Ovar e não comer o famoso pão-de-ló. Mas melhor que comê-lo é aprender a fazê-lo (e depois comê-lo). Na pastelaria Gaby podem aprender a receita que está na família à cinco gerações, o pão-de-ló Celeste de Ovar.

A própria Gaby partilha todo o método passo a passo, com muito amor e podem ainda ver todas as criações originais que a sua pastelaria de autor tem desenvolvido. É uma perdição.



Este texto resulta de um fim-de-semana organizado pela Câmara Municipal de Ovar para um conjunto de bloggers da ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses. As opiniões, como sempre, são todas sinceramente minhas.

Leave a comment