Retratos de Lisboa – Bica

Entra-se no Grupo Excursionista Vai Tu como se numa gruta. Uma porta pequena filtra a pouca luz que passa para o interior. A sala começa pequena, mas abre-se para as traseira. O bar ao fundo, num corredor. Cheira a mofo e cerveja velha. Numa das mesas da entrada um homem nos 30, pele vermelha, como se fosse explodir, olhos vidrados. Mais para trás 3 velhotes. Quando pergunto se podemos conversar riem-se encavacados e chamam pelo Toni. “Vá lá, não sejas assim! Quem melhor que tu para falar do Bairro, pá?”

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A Bica é um dos bairros mais antigos de Lisboa. Em 1597 um deslizamento de terra originou uma ladeira da colina de Santa Catarina até ao Rio Tejo. Naquela época Lisboa era procurada por gente que buscava trabalho como marinheiros, pesacadores e varinas e a colina rapidamente se tornou habitada. Com o passar dos anos o bairro cresceu e tornou-se famoso também pelos cantores de Fado e pela animada vida nas ruas.

Nos anos 80 a maioria da população Lisboeta mais jovem começou a sair do centro da cidade e a ocupar bairros novos e mais baratos, na periferia. A Bica, como muitos dos antigos bairros tradicionais ficou abandonada aos residentes mais velhos, e esquecida pelos sucessivos governos locais. A maioria dos edificios foram deixados ao a apodrecer, há medida que os seus ocupantes morriam, ou ficavam sem meios para os recuperar.

Na ultima década deu-se um renascimento do interesse pelo bairro.

Primeiro foi a abertura de alguns bares, que re-inventaram tascas antigas. Algumas pessoas começaram a fugir para a R. da Bica Duarte Belo para se refugiar das multidões que enchiam o vizinho Bairro Alto. Depois foram as apartamentos renovados jovens adultos e por extrangeiros a viver em Lisboa, atraídos pela história e ambiente do bairro.

Hoje em dia é um lugar “da moda”, com vida, onde diferentes gerações e estratos sociais convivem. Tradicioanl, mas cosmopolita. Uma aldeia, no centro da cidade.

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António Silva, o Tóni, é o sócio numero 1 desta colectividade. 70 anos de Bica, careca, calças de pregas e pullover verde e os olhos vermelhos e vidrados, das cataratas. Primeiro que tudo há que desfazer as confusões : ”Isto aqui ninguém trabalha. Somos todos voluntários. Quem está normalmente são os directores, mas eu também venho sempre que posso dar uma ajuda…é quase todos os dias. Isto é como a minha segunda casa. Estou com os amigos…vivo sozinho sabe” Os amigos riem-se e apontam para um recorte no placard, com o título: personagens da Bica ”O Toni já é famoso, apareceu no jornal e tudo”. Toni sorri envergonhado. E o bairro? “Isto agora está melhor. Andam a fazer muitas obras, está mais bonito, há mais gente nova… Agora de manhã não, está tudo a  trabalhar, mas mais para a tardinha vão chegando”

Aqui vem-se para beber, como comprovam as imperiais e aguardantes a serem servidas, mas também para jogar às cartas, dominó, ver a bola ou simplesmente conversar. Afastar a solidão de casa. Como esta, há mais 4 colectividades no bairro explica Carlos. É um dos directores e um dos mais velhos, nos seus 47 anos. “ A malta nova é que tem tomado conta disto, e bem. Até temos um belga, que já cá vive à muitos anos que também é director..ainda à bocado aqui esteve”.

Ao contrário de outra senhora com quem falei, não concorda que os novos moradores do bairro faltem ao respeito. “Não falam muito, não estão habituados a esta vivência e demoram a adaptar-se, mas faltas de respeito nunca vi. Olhe, aqui para nós, vejo mais nos garotos que nasceram aqui e saem-se com cada carvalhada para os mais velhos… no meu tempo íamos logo fazer queixa aos pais, mas agora não querem saber.”

Para além do bar, que funciona como centro de dia,  prestam apoio domiciliário e de alimentação à 3ª idade e a crianças carenciadas e organizam festas no Natal e na Páscoa. Durante a semana fecham às 11, porque “todos temos os nosso trabalhos no dia a seguir, mas ao fim de semana ficamos mais um bocadinho e fazemos karaoke para puxar os mais novos”. E a confusão na rua? “Isso é um problemas dos donos dos bares, que continuam a vender cervejas cá para fora depois da hora. Os mais antigos, como o Bicaense ou o Baliza respeitam. Os bares são bons para trazer vida ao bairro, mas tem de se respeitar os horários, senão também começa a atrair gente que não interessa”

 Agradeço-lhe e saio, a calcorrear as ruas inclinadas, sentir um pouco da vida do bairro.

A caminhada deixa-me sem fôlego. Para a esquerda ou para a direita é sempre para cima ou para baixo. Calçadas escorregadias, degraus intermináveis, travessas inclinadas. As janelas estão próximas e há roupa estendida.Cheira a sabonete e a flores.

Sento-me nos degraus de um edificio amarelo. Passam duas senhoras com sacos de supermercado. Sorriem e dizem “Bom dia”. Respondo-lhes da mesma maneira.

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