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Leio que elas vão lá estar de novo e algo dentro de mim muda. Quero ir.

Quero lá estar de novo. Quero sentir a pele oleosa e peganhenta a escorrer a humidade que se lhe agarra a toda a hora. Quero saltar dentro do carro e bater com a cabeça no tejadilho enquanto dirigimos para roças esquecidas lá, onde Jesus, diria o Lalá, ou o Diabo diria o Alcino, perdeu as botas. Quero ter vontade de bater naqueles professores que se estão borrifando, e querer abraçar os que fazem o impossível com quase nada. Quero-me sentir desconfortável a dançar kizomba. Quero-me sentir acanhada em frente a 30, ou 40, ou 50 miudos de olhos esbugalhados, para depois me sentir confiante que consegui passar a mensagem, e a seguir frustrada porque talvez não tenha conseguido, e logo depois confiante de novo. Quero sentir a esquizofrenia de saber que fazemos a diferença se conseguirmos chegar só a uma criança, e duvidar se sequer isso acontece, e ter esperança que aconteça, e ter a certeza que realmente acontece antes de começar a questionar tudo de novo.

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Quero-me testar: os meus limites, a minha confiança, a minha força, as minhas fraquezas, e algumas vezes falhar todos estes testes e sentir-me miserável; alguma vezes falhar todos estes testes e seguir em frente, algumas vezes falhar só alguns e sentir-me pior ainda, e algumas vezes saber que só o acordar todos os dias e fazer o meu melhor, nas piores condições já é vencer tudo isto.

Porque foram as piores condições.

Não por causa do lugar, ou do trabalho, ou das pessoas, mas por minha causa. E é por isso que nunca me tinha apercebido o quanto tinha gostado de lá estar, qual o verdadeiro impacto que tinha tido em mim. Porque eu estava lá, mas a minha mente não. Não totalmente. Estava a maior parte do tempo em casa, onde tudo tinha mudado mesmo antes de eu ir, e tudo poderia estar para mudar para sempre quando voltasse. A minha mente percorria o passado e perguntava-se sobre o futuro a 16819km do presente.

Mas o presente estava todo lá, deixando em mim a sua marca, mesmo que eu não me desse conta. Dei agora.

E então agora queria lá estar, onde São Todos Primos, onde o cacau é pérola castanha ou amarela que nasce dos troncos, onde a fruta-pão se apanha nas árvores do caminho, ou da escola, onde as mangas são minusculas e se desfazem na boca, onde existem caja-mangas,e safu, e sape-sape, e banana maçã, banana ouro, banana prata, banana pão e outras 50 variedades, onde os peixes têm nome de coisas estranhas, onde os meninos caminham descalços para a escola e gritam” boleia” atrás dos carros, onde as casas caem aos pedaços, onde ri e chorei e cantei e dancei e ensinei e aprendi e chorei e chorei e chorei e depois consegui rir outra vez.

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One thought on “O Peso do Leve-Leve

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