Caminhamos pelas ruas estreitas de Pamplona. Este é o caminho do encierro, na altura das festas de San Fermin. Hoje nem touros nem multidões. Muita gente, mesmo assim. É domingo e todos estamos de passeio, ou só de pintxos y cañas. É o meu ultimo dias, destes cinco que me trouxeram ao Norte de Espanha, a visitar amigos que não via há 5 anos.

Javier é incansável no seu conhecimento e na vontade de o partilhar. Enquanto caminhamos descansados, conduzidos por ele, vai-me contando a história destes lugares, como tem feito em todos onde me tem levado. É o marido de Ana, a minha amiga e é com eles que tenho ficado. Jon, o outro amigo, juntou-se a nós hoje, depois de termos estado na sua terra, Vitória-Gasteiz, ontem. Entrecortando a informação passada por Javi, conversamos sobre tudo: lembramos episódios engraçados de quando nos conhecemos em Helsínquia, há 8 anos, falamos de planos futuros e frustrações passadas, dizemos disparates, discutimos política e cascamos na religião. Sinto-me viajante e em casa ao mesmo tempo. Se duvidas houvesse (e não havia) saberia agora que vir tinha sido a decisão certa.

Discutia no outro dia a importância do tempo de férias para quem, como eu, se sente no seu melhor a viajar. Na falta de tempo ilimitado, como escolher os próximos destinos, como optimizar os dias de que se dispõe? Comentavam-me que lhes custava perder tempo com destinos próximos ou menos exóticos.

Este meu primeiro semestre tem sido, e vai continuar a ser, próspero em saídas. No entanto, qualquer uma delas ruma a lugares aparentemente banais, relativamente próximos e/ou onde tenho amigos. Um desperdicio desse tempo valioso, pensariam alguns.

Estella, onde vivem Ana e Javi é uma vila em Navarra, a meia hora de Pamplona. Seria um destino que escolheria à partida? Não. E no entanto não conseguia imaginar melhor lugar onde estar, no tempo em que lá passei. Mais do que os lugares em si, para mim, as viagens fazem-se das pessoas com quem nos cruzamos, e do que fazemos enquanto por lá andamos. Se essas pessoas já me são especiais à partida, o lugar sê-lo-à seguramente. E então descubro sitios por onde provavelmente nunca passaría de outra maneira, ou vivo coisas como não as imaginei. E nunca dei o tempo como perdido.

Por isso continuo a voltar a Amsterdão. A fazer as mesmas coisas com o Ivo e o resto do “gang”, e a descobrir outras novas de cada vez.

Por isso fui ao Dubai, onde não poria os pés não fosse ter lá a Joana. Matei saudades das conversas à volta de copos de vinho, discuti o Médio Oriente com Egípcios e descobri uma história que não conhecia e me surpreendeu.

Por isso fui a São Francisco, que estava bem longe na minha lista de prioridades, mas tinha o Romulo com quem há muito não passava tardes a discorrer prioridades, sonhos, dificuldades, inspirações. E apaixonei-me pelas livrarias, pelos bairros, pela diversidade da cidade.

Por isso voltarei à Argentina, onde deixei tanta gente especial que me faz falta.

Por isso fui à Suiça ver o Gastón e  a Célia. Descobri a cidade de bonecas que é Lausanne, comi fondue de queijo caseiro numa casa nos Alpes e senti-me a Heidi no meio do verde e das vacas, enquanto relembrava histórias da Argentina e me sentia de novo acarinhada, da maneira especial como só eles sabem.

O mundo é grande, mas as pessoas são mais. E mais importantes que carimbos num passaporte. Esses virão a seu tempo, mas continuarei sempre que possa a juntar afectos aos kilómetros.

 

One thought on “Viagens Afectivas

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