33 no Tejo Bar

Aos 33 descobrem-se novos bares em Lisboa. Não que seja dificil. Têm aparecido como cogumelos em bosque húmido. Mas este não é novo, a  não ser para mim. E é bom continuar a descobrir a velha Lisboa, aos 33.

Percorremos as ruas estreitas de Alfama para lá chegar. Sou conduzida, não presto atenção às direcções. Já há grinaldas e banquinhas em construção. Santos populares em preparação; vai ser uma festa. Vimos da Sé, de celebrar estes 33 que começam a prometer um bom ano. Os quatro resistentes à procura de guitarras porque ao Filipe apetece-lhe tocar e cantar. Rumamos ao Tejo Bar, porque no Cais do Sodré há invasão de Espanhóis. Será a primeira vez nestes dois dias que agradeço a vinda da Liga dos Campiões. Não fosse isso e talvez não tivessemos ido lá parar.

É uma sala pequenina, onde se entra por uma porta que parece de casa. Mesas baixinhas, bancos ainda mais. Por cima do balcão, fotos e desenhos de gente que toca e canta, nas paredes distribuem-se posters e vinis. Guitarras à disposição e um piano em miniatura.  Há livros espalhados por todo o lado: pautas, letras de musica, ensaios.

Às 2 da manhã a casa não tem muita gente. Um grupo de espanhóis a carpir a  derrota do Atlético e uma mesa com 5 brasileiros. Estes têm uma guitarra da casa com eles e cantam algo em francês. Fico  a saber que aqui, a noite está a começar.

O Filipe atira-se ao que veio e começamos a desfiar o repertório. Mamonas Assaninas traz sorrisos a toda a gente; cantamos Bob Marley em coro. O rapaz da outra mesa acompanha à guitarra, quando sabe, ou começa outra musica quando terminamos. As palmas são mãos esfregadas para não incomodar os vizinhos.

Entretanto o bar encheu. Partilham-se mesas e bancos e conversas, como se todos nos conhecessemos. Toda a gente canta. Já são 3.30 e isto continua a aquecer.

E depois chegam musicos a sério. Uma guitarra portuguesa, um baixo, uma viola e um cavaquinho. Acho que já vi o guitarrista em casas de fado. Sentam-se como em casa, afinam instrumentos, conversam. Quem tem  musica no sangue não deixa de tocar quando o trabalho acaba. E então começam. Fados, sambas, bossa nova. Toda a gente acompanha, pedem-se musicas. Eles sorriem, eu também. Está tudo em casa.

Mais tarde, já a bater as 5, junta-se um acordeonista e um percussionista. Os guitarristas retiram-se para um banco junto à parede e acompanham baixinho. Estão deitados como no sofá de casa, guitarras ao alto. Canta-se alto, toca-se alto, mas as palmas continuam a ser apenas um esfregar de mãos. Instruções de Sérgio, o responsável. O mesmo que de repente diz que acabou, que fecharam, enquanto um policia põe a cabeça através da porta. O agente pergunta se está tudo bem, alguém lhe grita que estamos só a tocar. “Então continuem, mas de porta fechada”. Se a autoridade abençoa, tudo está bem. Sérgio sorri e fecha a porta. Siga a música.

 

 

One thought on “33 no Tejo Bar

  1. Texto muito bem conseguido, até parece que lá estou outra vez. Gostei tanto que já e reli. Parabéns, foi uma honra ter participado no evento que inspirou tão belas palavras. Beijinho

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