Na Clave do Chiado – Andamento I

(Uma das razões pelas quais continuo a fazer cursos de escrita é a possibilidade de me juntar com pessoas talentosas. Partilhar ideias e receber também um pouco de inspiração. Este artigo foi escrito pelo Zé Pedro, companheiro de um desses cursos.  Achei que era um fantástico ” Conto Alfacinha” para partilhar e ele foi um querido e acedeu a que o publicasse. As fotos também são suas. Esta é a primeira parte.  Podem dar-lhe os parabéns pelas maneira fantástica como escreve para zepedro.mail@gmail.com)

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“Where words fail, music speaks” – sentido originalmente por Hans Christian Andersen, este axioma feliz tem-me acompanhado nas inúmeras viagens às capitais do meu universo musical. Em Lisboa temos o fado cantado em Alfama. A música africana dança na Mouraria. O burlesco despiu-se no Cais do Sodré. O jazz precisa de Liberdade. A electrónica descarrega a sua energia nos cais de Alcântara e Santa Apolónia. No Bairro ouve-se de tudo… com um copo numa mão e o cigarro na outra. As elites não abandonam os bunkers de Berna (Gulbenkian e Culturgest) e eu recuso-me a escrever sobre a 24 de Julho.

Mas então e no Chiado…? Qual a “música que fala” mais alto na zona mais nobre da cidade? Não sei bem… mas aqui fica uma sugestão.

 

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Prelúdio

O nosso “roteiro para turistas melómanos” só poderia ter começado no nº29 da Rua dos Caetanos. É lá que se encontra a vetusta Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. Fruto do trabalho e da visão do pianista, compositor e notável pedagogo João Domingos Bomtempo (1775-1842), esta instituição de referência continua a funcionar como berço, por excelência, de muitos nomes consagrados do panorama musical português. Antes de entrar, observo atentamente o exterior do edifício. Os sons desconexos que para a rua se anunciam, convidam-me a perscrutar os cento e setenta e sete anos daquelas paredes cravejadas de história(s).

Sou recebido pelo professor Bruno Cochat, um jovem de 40 e poucos anos, de olhar firme e postura confiante. O “look” informal é totalmente compatível com os 3 piercings que ornamentam a orelha esquerda e nos quais vislumbro um tríptico de modernidade a desafiar uma instituição ortodoxa. Parece-me um requisito essencial: afinal de contas, estamos numa escola pública repleta de jovens barulhentos. Segue-se uma sessão de perguntas entrecortadas pela surpresa sonora dos corredores que vamos percorrendo. Sob o manto diáfano de uma acústica imaculada, recordo as salas de estudo atávicas, uma galeria taciturna, um contingente de instrumentos cansados que há muito deviam estar na reserva… Mas recordo também a beleza reverberante de um auditório com frescos de José Malhoa, a presença impetuosa de uma trompa que se insurgiu contra todo o edifício, o orgulho inquebrantável de uma placa comemorativa da primeira audição integral das 32 sonatas de Beethoven (pelo insigne Vianna da Motta).

Perante a pergunta inevitável, sobre as enormes dificuldades colocadas a uma instituição cultural totalmente financiada pelo Estado, Bruno revela-me que tem sido feito um grande esforço para contrariar o “síndrome dos tectos trabalhados” e, aos poucos, aproximar cada vez mais o grande público do trabalho que ali se tem desenvolvido. Através dos concertos, da participação nas redes sociais, dos projectos noutras áreas (como a dança e o teatro) e ainda das parcerias com entidades privadas (a propósito das quais merece destaque a criação da Big Band Santini).

De volta à rua, onde me aguardava um aplauso de chuva miudinha, não pude deixar de sorrir na primeira esquina que dobrei… Escondida por um toldo avermelhado, protegida pelos preços em tempos de crise e abençoada pelo nome absolutamente espirituoso, a diminuta tasca “Doce Música” só podia pressagiar um dia harmonioso.

Andamento I –  Travessa dos Teatros

Num compasso assumidamente livre, sapateei pela calçada desde o Bairro Alto até ao coração do Chiado. Como sempre acontece, entreguei-me à fruição etnográfica (podem ler voyeurista…) num ritardando prazenteiro e sem fronteiras. Sou cúmplice desta Lisboa estrangeirada e não me canso de viajar neste carrossel cosmopolita. Entretanto já passou o 28 do costume no seu amarelo omnipresente. Sigo-lhe o rasto durante cem escassos metros até chegar ao próximo destino.

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  Inaugurado oficialmente a 22 de Maio de 1894, altura em que adquiriu o nome da rainha (Teatro Dona Amélia), o São Luiz Teatro Municipal continua a desempenhar – sobretudo desde a sua reabertura em Novembro de 2002 – um papel fundamental na oferta cultural da cidade. Da riqueza aveludada da sua Sala Principal até à vanguarda intelectual do seu Jardim de Inverno, não faltam espaços privilegiados para receber a Música (desde os concertos de Fado à Festa do Jazz), o Teatro, o Cinema, a Poesia e outro tipo de eventos (como as homenagens póstumas a cidadãos ilustres). Lamentavelmente, as visitas têm de ser agendadas e autorizadas com antecedência…

Apresso-me a cruzar os longos degraus que nos conduzem ao magnífico Largo de São Carlos. À minha direita, com a sua varanda imponente, encontra-se um dos mais belos edifícios de Lisboa, o Teatro Nacional de São Carlos. Classificado como monumento nacional desde 1928, pode ser visitado pelo público durante a semana e aos Sábados (sempre das 12H às 16H), excepto nos dias em que há espectáculo.

 

 

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