Na Clave do Chiado – Andamentos II a IV

Andamento II – Adágio Pessoano

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A condescendência pluvial transformou o largo num imenso espelho quadrado. Com nitidez fotográfica, revelou-se no reflexo a casa onde nasceu Fernando Pessoa e, como que a lembrar-nos da importância desse momento, surgiu também uma notável estátua de bronze – da autoria do escultor belga Jean-Michel Folon – que ali foi colocada em Junho de 2008, aquando da celebração dos 120 anos do seu nascimento. A título de curiosidade, refira-se que a cabeça do nosso maior poeta foi transformada num livro aberto com a lombada voltada para o teatro; uma imagem perfeita para prefaciar as palavras do próprio, retiradas do livro “O que o turista deve ver”, escrito em 1925 mas editado muito recentemente:

– “A sala de espectáculos, de forma oval, é majestosíssima e bem conseguida; a decoração, toda em dourados, é da autoria de Manuel da Costa; e as condições acústicas da sala são perfeitas”.

Durante o mês de Julho, nas noites quentes de luz e cor, este cenário tão especial serve de palco ao mui aclamado “Festival ao Largo” – uma série de espectáculos de Música, Ópera e Dança realizados em conjunto pelo Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) e pela Companhia Nacional de Bailado (CNB).

 

Interlúdio Vienense

Estrategicamente colocado, o já famoso Kaffeehaus é o local ideal para sentir a sofisticação europeia sem perder a descontracção. Infelizmente, na qualidade de “freguês assíduo”, sou obrigado a informar que o espírito musical vienense se dilui muito rapidamente na efervescência social dos tugas… Não obstante, merece uma forte recomendação: seja para “brunchar”, tomar um café enquanto se lê o jornal, sorver um copo de vinho quente ou interagir-corajosamente-com-a-amostra-canina-da-mesa-ao-lado-para-desbloquear-a-conversa-com-a-respectiva-dona…

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Andamento III – Na senda de uma pauta

Para esmoer o merecido repasto, ou passear o cachorro se a conversa tiver corrido bem, nada melhor do que descer a rua do Alecrim até ao nº21. Estamos na “trem azul”, uma loja mítica dedicada à venda de discos de jazz; mas não só, é também a face visível de uma das mais conceituadas editoras (de música jazz) a nível mundial. Para se ter uma ideia, e muita (diria até demasiada) gente não conhece este facto,  a “clean feed records” já produziu mais de 200 álbuns em pouco mais de uma década. Vale bem a pena visitar este espaço e, com alguma sorte, usufruir da sabedoria altruísta do Pedro Costa, um dos mentores deste projecto.

O regresso ao desfile de tendências da Garrett, outrora o principal eixo intelectual de Lisboa, faz-se pela rua Nova do Almada. Num edifício com duplo pé direito, a loja da “Companhia Nacional de Música” sugere uma visita ao seu vasto catálogo de música clássica (ou erudita… para ser tecnicamente correcto). Entre CDs, DVDs, livros de música e partituras avulsas, recordo as longas horas investidas na defunta Valentim de Carvalho. Avesso a reclamações saudosistas, não resisto, porém, a desejar um tempo mais lento. Talvez seja o efeito inexorável da nostalgia mas compreendo bem as vantagens de uma relação tangível (e partilhada) com a música. A Vida ainda é analógica.

A velha senhora que me atendeu, de ouvidos cansados mas disponíveis, faz um esforço mental para encontrar a partitura que lhe pedi – um tema lindíssimo, imortalizado pela voz de Maria Eugénia no clássico “A Menina da Rádio”. Parece surpreendida pelo anacronismo do meu gosto musical. A resposta, de um silêncio inusitado, obtive-a no ocre desarrumado do seu sorriso esbatido… Em total consonância com a tonalidade envelhecida das folhas de música empilhadas no esquecimento de um canto.

Andamento IV – Sara e Mathis, Somos

Ao tentar desviar-me da multidão cacofónica que, ao final da tarde, invadia a principal artéria do Chiado, fui atraído para uma passagem sombria que dá acesso a uma enorme esplanada, conhecida por Páteo do Siza. Impelido pelo arpejo deleitoso de uma guitarra longínqua, não resisti a desafiar a corrente fria que assobiava na direcção oposta. Entrei. Encostadas a uma parede estavam duas silhuetas jovens, mal protegidas por dois minúsculos amplificadores. Ela empunhava um microfone. Ele abraçava uma guitarra. Foi assim que conheci a Sara Lemos e o Mathis Rajot.

Não os abordei de imediato. Precisava de me consumir mais um pouco naquela melopeia. A voz sedutora que ela exalava parecia repousar nas cordas que ele tão bem massajava. Quis conhecer as suas histórias.

Portuguesa, 21 anos, tímida, estudante de cinema no desemprego, sem grande formação musical. Francês, 23 anos, extrovertido, estudou piano clássico em criança, participou numa banda de rap e em projectos de música electrónica, é formado em Musicologia e pretende obter o Mestrado em Etnomusicologia.

“Tocamos juntos porque vivemos juntos e porque foi a música que nos juntou” – diz ela com um sorriso de embalar. De facto, nada parece desafinar a firmeza daquele dueto. Nem o preconceito de quem passa, nem a crise que trespassa. Contam-me que “é muito difícil tocar na rua por causa das licenças” e “dos polícias, que connosco são muito simpáticos mas que já confiscaram o saxofone de um cigano que toca muito bem”. Indago sobre os músicos de rua no Chiado e em Lisboa. “Existe um rapaz de rastas que é muito bom no trompete” e “um outro francês que costuma tocar violoncelo”. Adivinho a itinerância da sua arte. O prazer de fazer música não permite pagar 300€ por mês para se poder tocar na rua Augusta; problemas com a polícia ninguém quer.

Sobram os concertos à noite, não mais do que dois por semana, nos poucos bares que os acolhem. Sobra o Jardim da Estrela quando o tempo aquece. Sobram os ensaios em casa, com a participação animada de um amigo percussionista.

A conversa aproxima-se do fim. Não quero mitigar-lhes a esperança mas começam a faltar-me as palavras… Recorro à música, deixo-a falar. O tema contagiante que nos apresentou chama-se “Carinhoso” e pertence ao incontornável Pixinguinha, mestre de sambas e chorinhos.

Afasto-me, trauteando a felicidade alheia. Existe mesmo um Chiado harmonioso.

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(Uma das razões pelas quais continuo a fazer cursos de escrita é a possibilidade de me juntar com pessoas talentosas. Partilhar ideias e receber também um pouco de inspiração. Este artigo foi escrito pelo Zé Pedro, companheiro de um desses cursos.  Achei que era um fantástico ” Conto Alfacinha” para partilhar e ele foi um querido e acedeu a que o publicasse. Podem dar-lhe os parabéns pelas maneira fantástica como escreve para zepedro.mail@gmail.com.  As fotos também são suas. Esta é a segunda parte.  Têm a  primeira aqui. )

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