Ao contrário de São Tomé, coberto de nuvens, o Ilhéu das Rolas mostra-se com azuis impossíveis. Céu e mar com vários tons e transparências. Areia tão branca que magoa os olhos. Tudo isto contrasta com o negro das rochas que se espalham no areal e entram mar adentro.

Hoje é Domingo. Por isso a Praia Café está pontilhada de meninos que aqui vivem e assim se divertem. Em pranchas construídas com troncos, apanham ondas como se de canoas se tratassem, usando paus como lemes e pagaias. Rebolam na areia, cobrindo a sua pele negra de amarelo, quase branco, e depois chapinham na água para a retirar. Alguns voltam para casa assim mesmo, qual croquete. Muitos estão nus. Muito têm hérnias umbilicais protuberantes, sinal da falta de cuidado com as crianças que temos notado pela ilha, e do fraco acesso a cuidados de saúde.

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Uma vez mais, vêm pedir-nos doces. Uma vez mais lhes repetimos que não temos; que lhes faz mal aos dentes. De seguida pedem lapiseiras. Como quebrar este ciclo? Como fazê-los perceber que os turistas não são, nem devem ser fontes de “coisas”? Não o ser realmente é um bom começo, mesmo que os meninos se afastem a fazer beicinho.

A Praia Café é uma meia lua. Do lado esquerdo a encosta do que foi o vulcão desce até à praia, coberta de vegetação. Palmeiras e muitas outras árvores formam um manto cerrado. Verde alface, verde esmeralda, verde seco. Do lado direito casinhas amarelas e São Tomé ao fundo, do outro lado do Canal das Rolas. Em frente, o horizonte, que aqui parece sempre mais longe, verdadeiramente infinito.

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Os miudos gritam em todas as direcções. Vão-se rebolando à nossa volta, aproximam-se mais uma vez. Nota-se o misto de emoções: curiosidade, simpatia e a vontade que lhes demos qualquer coisa. Mantemo-nos firmes. Ao fim de algum tempo desistem de pedir e deixam-se ficar apenas deitados à nossa frente. Querem saber de onde somos, como nos chamamos, se temos filhos. Rebolam para a esquerda e para direita, ficando cada vez mais cobertos de areia e depois voltam com as canoas para a água.

Acompanho-os; o sol queima e a pele pede o descanso do mar.Enquanto se afastam velozes, dois e três por canoa improvisada, na direcção das ondas que quebram ao fundo, entro aos solavancos na água tépida. A minha sola dos pés não aguenta as pedras que pisa. Menina. Mergulho com a água pelos joelhos e afasto-me a nadar. Rochas, areia e peixes deslizam por baixo de mim. Vejo tudo, como se de um vidro se tratasse.

De barriga para cima, apenas azul. O corpo embalado na ondulação, sem peso. Água por baixo, céu por cima. O som da minha respiração na minha cabeça, concentrado pela bolha que abafa todo o mundo, do outro lado. O som do fundo do mar quando me deixo afundar, depois.

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A Joana constrói castelos que encantam meninas. Vejo-a de lado, com o calor da areia a aquecer-me a barriga, o sol a lamber-me as costas. Devíamos sair daqui, explorar o resto que o Ilhéu tem para oferecer. Esta não será sequer a praia mais bonita, segundo lemos, mas não nos movemos. Agora é apenas disto que precisamos.

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