Apologia do Viajar Devagar

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Se ter tempo para “desperdiçar” me fez gostar de estar em Chennai, pode fazer-me gostar de estar em qualquer parte. Isso faz de mim uma pessoa mais feliz, seja onde for.

Ter tempo implicou que pudesse acordar com calma, deixar o corpo descansar da viagem e adaptar-se aos novos horários. Permitiu-me falar com as pessoas na rua, pedir direcções, conselhos e não me importar se tenho de andar um ou dois quilómetros para chegar ao destino. Chennai não é uma cidade bonita, mas ter tempo fez com que pudesse passar uma tarde inteira na praia a apreciar a vida que por lá se fazia, tão diferente da que estou habituada, e outra neste memorial,  em vez de seguir do forte para a igreja, para o templo, para a rua x, porque amanhã já vou embora e há que cruzar essas coisas da lista. Por ter tempo para voltar aos mesmos lugares pude conhecer o senhor da mercearia, que já sabia que eu queria 2 bananas e 4 tangerinas e o miudo da farmácia, que me perguntava sempre pelo Ronaldo. Pude perguntar o que era exactamento o Pongal, e desejar um Happy Pongal a quem passava na rua, o que sempre despertava sorrisos.

Ter tempo deu-me a tranquilidade necessária para ultrapassar os receios iniciais que sempre nos assaltam ao visitar um país com costumes tão diferentes dos nossos, como a Índia. Pude respirar fundo antes de me lançar na rua sozinha, a ultrapassar coisas tão simples que se tornam aqui tão complicadas, como atravessar a estrada (sem ser atropelada por um carro, um rickshaw, uma mota, uma vaca, uma pessoa…), passar no meio de um grupo de homens (que olham para as mulheres como se fossem pedaços de carne) ou negociar uma viagem de rickshaw.

Ter este tempo para dar passinhos de bebé, permitiu-me, como esses mesmos bebés, adquirir a confiança para partir mais segura para o destino seguinte, e a confiança em nós mesmos é essencial para uma experiência de viagem positiva.

Claro que todos temos estilos e vontades diferentes nas nossas viagens. E a falta de tempo característica da nossa sociedade  instituiu-nos um ritmo que temos muita dificuldade em deixar, mesmo quando em viagem. Também sei que a maioria das pessoas viaja com o tempo contado, aproveitando os poucos dias de férias, que querem fazer render ao máximo. É um equilibrio dificil. Mas viajar devagar permite-nos experiências que não conseguimos se estivermos sempre em trânsito, sempre em movimento de um sitio para o outro.

A mais importante delas é o contacto com as pessoas. E esse contacto, para além de ser, para mim, o mais importante das viagens, traz outros beneficios. Ninguém como os locais sabe o que de melhor tem a sua zona.

Em Varkala fiquei também alguns dias, com duas amigas. Lá, tornámo-nos amigas de Sarath, o dono do bar ao lado do nosso quarto. Todas as noite por lá passávamos e ficávamos na conversa. Sarath é de Allepey e quando lhe perguntámos qual seria a melhor maneira de explorar as Backwaters não só nos desaconselhou a ficar num house boat, ao contrário do que vinha sugerido em todos os guias e se via publicitado por toda a parte, como ligou do seu telefone para os amigos que tem por lá e tratou da nossa reserva na Vrindhanavanam Heritage Home. Ao chegar, fomos recebidas como “as amigas do Sarath”, e a seu conselho, marcámos uma manhã de passeio em canoa pelas Backwaters, em vez da pernoita no house boat. Ao ver passar dezenas destes barcos que tinham ficado ancorados no mesmo sitio e estragavam a paz daqueles canais com os seus motores percebemos o quão acertado tinha sido o seu conselho. Nós, deslizávamos pelos canais secundários ao ritmo dos remos e dos pássaros, acompanhando a vida das aldeias nas margens.

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O equilibrio é dificil, quando não temos tempo para “gastar”, é verdade, mas não é impossível. E este gasto é um ganho, se o encararmos como esta possibilidade de experiências e contacto com os outros. Com a cultura que, supostamente, viajámos para conhecer. É mudar o paradigma. Da próxima vez que planearem uma viagem, tenham isto em conta. Será que vale a pena tentar condensar um país inteiro em 15 dias ou um mês? Ou será melhor escolher uma zona e conhecê-la melhor? Será que querem mesmo passar metade do tempo em transportes de um lado para o outro, ou ficar 3 ou 4 dias em alguns dos lugares, a explorar a fundo, ou simplesmente tirar o pulso ao lugar e descansar um pouco? Não será melhor, principalmente no inicio de uma viagem, ter tempo para perceber as dinâmicas do pais, e da sua gente?

Comigo resulta. E com vocês?

 

 

2 thoughts on “Apologia do Viajar Devagar

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