Diários do Kilimanjaro : Sobre Comida e Cabras Montesas

Dia 2 : Barranco Camp, 3900m de altitude

Hoje, subimos até Lava Tower, a 4600m, almoçámos, e descemos até aqui. Aclimatização.

Ao chegar lá, senti uma pontinha leve de dor de cabeça, mas nada de mais. Passou ao almoço. No meio do nada, rodeados de neve e com um vento gelado, vimo-nos dentro de uma tenda enorme, azul, sentadinhos a beber chá durante uma hora, até que nos chegou peixe e frango, arroz com legumes, guacamole e sopa. Todo um luxo em altitude.

A mesma tenda onde estamos agora, a comer pipocas e beber mais chá. São 17.30h, o jantar é às 18.30h. Entretemo-nos a ler e a conversar sobre o que lemos. Vantagens de viajar com gente com cabeça.

Passámos por tudo, hoje. Sol, chuva, neve. Charneca e deserto alpino. Fez calor para andar de alças e frio para vestir três camadas.

Ao chegar aqui, imensas Senecias. Estamos num vale e o contraste é grande com tudo por onde passámos hoje. O verde com a ausência de vegetação lá em cima, um rio a correr aqui ao lado. O sol vai intercalando com nuvens que passam a uma velocidade incrível e nos deixam metidos na névoa.

Os únicos animas que vimos foram uns ratinhos selvagens, corvos de pescoço branco (que parecem uma mistura de corvo com abutre. São enormes!) e uma espécie de pombos. Impressionante o que faz a altitude. Pensar que lá em baixo há vida digna de safaris.

De manhã as tendas estavam cobertas de gelo. Custou sair do saco-cama, mas andei feliz o dia todo. Mesmo à chuva. Mesmo com frio.

De Shira II a Lava Tower foi sempre a subir, mas Joseph impõe-nos um ritmo realmente lento. Não me senti cansada nunca. Eles pareciam genuinamente orgulhosos de nós e da nossa boa disposição quando lá chegámos. “This is usually one of the hardest parts. People feel sick and demoralized. You guys look great!”. Inchámos um bocadinho o peito, confesso.

 

Dia 3: Karanga Camp, 3950m de altitude

A Barranco Wall é, como o nome indica, uma parede. Vêmo-la elevar-se até aos 4200m, desde o acampamento. Apesar de, tecnicamente, não ser uma parede de escalada, é muitas vezes preciso usar mãos e pés ao mesmo tempo, para chegar lá acima. Na verdade, parece mais assustadora de longe, mas é preciso algum cuidado com pedras soltas e superfícies cobertas de gelo.

Logo depois do pequeno almoço, depois de atravessar o rio, com Senecias a perder de vista a ladeá-lo, subimo-la quais cabras montesas.

Sempre a mandar piadas, disfarçávamos algum nervoso enquanto hesitávamos e nos agarrávamos à parede tipo aranha. Os carregadores passavam a saltitar em dois pés e a fazer equilíbrio com as coisas na cabeça. Tenho um respeito enorme por estes homens.

Lá em cima, vistas de 360º. Para um lado o pico nevado do Kili, para o outro ondas de verde de floresta montanha abaixo, entre os dois o cinzento da aridez e da rocha.

Nós, encantados de pedra em pedra, a fotografar. Sentíamos-nos tão bem que até deu para fotos a saltar, sob o olhar atónito de uns franceses que tínhamos ultrapasado na subida.Depois de descer um pouco, atravessámos um planalto desértico, caminhámos ao lado de um riacho, passámos uma zona com rochedos polidos e plantas rasteiras. Daí avistávamos este campo, do lado de lá de um vale. Foi meia hora a descer, outro tanto a subir, tudo bastante inclinado. Definitivamente, os meus joelhos não são amigos de descidas.

 

Chegámos aqui ao meio dia. Três horas de caminho. Relaxámos nas tendas, que já estavam montadas, como sempre. Às 13.30h tinhamos a água quentinha nos alguidares à nossa frente, para lavar as mãos e a cara, também como sempre. Almoçámos à bruta, como sempre. 

Às 16h fomos subir até aos 4260m. Continuar a aclimatizar. É a subida que vamos fazer logo ao sair daqui, amanhã.

Às 18h estávamos de volta à tenda comum, com chá e amendoins torrados. Nunca bebi tantos líquidos na vida. E comemos tanto…começo a achar que posso ir daqui mais gorda, apesar do exercício.

O céu limpou ao pôr do sol. Há pouco, antes de vir para a tenda apercebi-me que temos as luzes de Moshi  à nossa frente, lá em baixo. E por trás de nós, as neves do Kilimanjaro iluminadas pela lua e um céu que não acaba de estrelas. Vi uma gigante vermelha, imaginei o contorno de um unicórnio  e fiquei ali feita parva, de escova de dentes na mão, a olhar para tudo e a sorrir, enquanto me gelavam os dedos.

Amanhã, campo base. Amanhã à noite, começamos a ascenção. Completámos metade da aventura hoje!

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