Diários do Kilimanjaro: O(s) dia(s) Mais Longo(s)

Foram dois dias, mas foi como se fosse só um. Pequenas sestas entre horas de caminhada nunca deram o dia como encerrado. Caminhar no escuro e amanhecer estoirada, menos ainda. Mas não era para ser fácil ou não ia ter nada para contar.

Dia 4 : Barafu Camp 4650m

14.30h: Agora é que isto é a sério. De Karanga até aqui, foi-se fazendo. Duas subidas bastante íngremes e compridas onde já comecei a sentir a respiração mais pesada, mas tudo bem.

Só que chegados, ofegantes e queimados do sol, tivemos de subir acima dos 5000m para a aclimatização final antes da ascensão. Quase a pique, por pedras lisas em algumas partes. As mesmas que vamos trepar logo à noite. Se agora já doeu…

Sentámo-nos lá em cima. Descansar e fazer tempo para os pulmões se irem habituando à falta de oxigénio. A vista era linda: o Mawenzi ao fundo, recortado contra o céu limpo; a rocha vulcânica preta a contrastar com esse azul  todo à nossa volta, a neve lá em cima, onde queremos chegar esta noite. Abrigámo-nos do vento, que nos gelava, e fizemos conversa de chacha com o Joseph a tentar disfarçar o nervoso que já se começa a instalar. Depois descemos de volta ao campo, onde estamos. Aqui não há muitos espaços planos para montar o acampamento, a vertente já é muito rochosa. Está toda a gente um bocado amontoada e entalada entre paredes de rocha. Como vamos passar a maior parte do tempo aqui a dormir (ou a tentar), não faz grande diferença.

 Às 17.30h vamos jantar, e depois é tentar dormir até às 23h. À meia noite começamos a subir e vão ser 13/14 horas até darmos o dia por terminado. É assustador, mas foi para isso que viemos portanto… um passo de cada vez.

Sinto-me muito cansada. Não queria dormir agora, para ver se consigo ao fim da tarde, mas acho que vou ter mesmo de apagar um bocadinho. Tenho os olhos a fechar.

18.30h: Dormitei até às 17h. Jantámos. Tenho de tentar dormir, apesar da hora, apesar das borboletas no estômago, apesar de agora não ter sono. A próxima vez que escrever terei subido o Kilimanjaro!

 

Dia 5: Millenium Camp 3950m

18.00h: Conseguimos! Subimos o Kilimanjaro. Todos os 5965 metros dele. E foi duro! Nunca imaginei, depois do caminho até ali, que aquelas seis horas de ascensão fossem ser assim.

O Livingstone acordou-nos às 23h. Não tinha quase pregado olho. Entre os nervos e o frio, a vontade de engolir fosse o que fosse era nula, mas lá me forcei a comer. À meia noite exacta, começámos a subir.

Um pé à frente do outro, com mais calma ainda que nos outros dias. O frontal a iluminar os pés da pessoa da frente, e era só isso que se via. De vez em quando olhava para cima. O céu estava impressionante de estrelado, mas tinha de olhar para o chão. Pedras, terra e gelo, não dava para distracções. O vento, de cortar. Como o meu nariz estava sempre a pingar, iam-se formando estalactites. Acho que arranquei a pele, a limpá-las.

Foram 6 horas de passinho a passinho, a pique até Stela Point (5739m). Seis horas de mentalização “vais lá chegar”, de pensar “estou tão farta disto”, de repetir baixinho “Little by Little, step by step, you get there”, como o postal que comprei em Key West só porque tinha um elefante, e cuja frase não me saía da cabeça. Seis horas de pingo no nariz, de dor nas costas, de pernas pesadas, do frio que, quando o vento atacava, parecia atravessar todas as 7 camadas de roupa.

Era a montanha interminável. Parecia que caminhávamos em direcção às estrelas. A determinada altura senti que já não conseguia mais. Um misto de cansaço, frio e principalmente saturação. Disse ao Baraka que precisava de parar e do chá quente que tinha levado. Não queria acreditar quando ele me disse que faltavam apenas 20 minutos, que estávamos quase em Stela Point e se eu aguentava que parássemos só lá. Saber que, apesar do sofrimento, tinham passado quase 6 horas sem que notasse, deu novo ânimo.

Passados os 20 minutos, ainda no escuro, meio escondidos atrás de uma rocha a tentar, infrutiferamente, evitar o vento, bebemos um chá e comemos umas bolachas. Era a hora mais fria, aquele momento antes do sol começar a sair, e parecia que eu não sabia mexer as mãos para abrir o pacote. O Joseph tratou de tudo. Acho que nos teriam levado às cavalitas se tivesse sido preciso, estes nossos guias maravilhosos.

Voltámos ao caminho, para a última meia hora, em torno da cratera. O sol começou a sair na curva do horizonte, por cima das nuvens. Estávamos a chegar ao ponto mais alto de África, no momento em que a estrela mãe a começava a iluminar. A neve dos glaciares reflectia em dourado, o céu era azul e cor de rosa e a rocha parecia ainda mais negra.

Chegamos ao pico Uhuro meia hora depois, mas aquele é que foi “o meu” momento da ascensão. Não o que justificou, porque sou apologista do caminho mais que do destino, tenho demasiado respeito pela montanha para me impor picos a qualquer custo . Mas o momento em que percebi que estava realmente ali, no topo de um continente, rodeada de neves que deveriam ser eternas, mas estão a desaparecer, em cima das mesmas pernas que me tinham levado até lá e que, para além de incrivelmente belo, isso era um privilégio.

Mas tinha demasiado frio para me deixar ficar. Depois da foto da praxe, desci rápido com o Joseph até encontrar uma rocha mais ou menos abrigada. O Baraka ficou com a Ana e o Aitor, que pareciam muito mais tranquilos com a temperatura. Ainda estou para encontrar luvas que me mantenham as pontas dos dedos quentes. Não sei se foi a altitude ou a falta de sono, mas estava convencida que se ficasse ali mais tempo me caíam os dedos.

De costas para a cratera, mas com vista para o Mawenzi a sair por entre as nuvens, comecei as primeiras três horas de descida que me deixaram os joelhos desfeitos. Chegados ao acampamento, sesta de uma hora, comida e mais duas horas até aqui.

Dói-me tudo e apetecia-me um banho. Acho que devia ter mais alguma coisa a dizer, depois de um dia como este, mas por agora, é só o que me ocorre.

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