Rota das Estrelas da Estrela : Primeiros dias

Trekking na Serra em Modo Pára-Arranca

Fomos apenas com uma ideia geral. Explorar a Serra da Estrela, a caminhar. Decidimos começar da Guarda, por facilidade de transportes públicos até lá, vontade de conhecer a única capital de distrito que faltava ao Borja e seguir para passar por Belmonte. Era das poucas Aldeias Históricas que ainda não conhecíamos, e tem a Grande Rota do Zêzere (GR33) a atravessá-la, em direcção à Serra. Anotámos algumas dicas de amigos sabedores e sacámos alguns trilhos para o GPS. Mais nada.

Centum Cellas, em Belmonte

Já na Guarda, depois de conhecida a sé e espreitadas as montanhas na distância, desde o telhado, enquanto nos abrigávamos da chuva num bar e confortados com queijos e vinho, decidi nomear esta rota incerta. Escrevi: “Esta semana somos flaneurs do ar livre e do património. Vamos deambular ao ritmo da vontade e conhecer as pérolas da Serra da Estrela e arredores. Não é só trekking e montanha e não é só património, é tudo intercalado com gastronomia à mistura. O único pressuposto é irmos pelo nosso pé, fora do alcatrão e preparados para comer e dormir na natureza, quando isso acrescentar pontos à experiência. A liberdade servirá também para o conforto eventual de uma cama quando a estadia for mais urbano-rural que natural. Chamei-lhe a Rota das estrelas da Estrela” Estava dado o mote. 

Já sabíamos que estávamos a ser demasiado optimistas, planeando 31km para o primeiro dia. Mas decidimos encará-los, e nos primeiros vinte continuámos convictos da opção. Não sei bem o que aconteceu nos últimos dez (desconfio da monotonia de repetição de passos nos estradões que apanhámos), mas nos meus pés nasceram três valentes bolhas que vieram a condicionar as opções dos dias seguintes.

Do caminho, retenho os vários tons dourados da vegetação rasteira, o granito a despontar, aqui ainda timidamente e o som quase alienígena das eólicas. E a simpatia da senhora do café de Vela, que não nos podia vender as sandes de queijo que lhe pedimos, por isso ofereceu-as. “Não consigo deixar as pessoas com fome. Ainda para mais vêm a andar!”

De Belmonte a Valhelhas, no segundo dia, foram 10 km de sofrimento, apenas por causa das bolhas. O caminho era fácil, seguindo a GR33, eventualmente com demasiada estrada (há duas variantes, tomámos a mais rápida) e até um pouco aborrecido. Incrível como a relatividade do tempo se pode tornar tão óbvia quando te dói cada passo.

Chegados à esplanada do parque de campismo da praia fluvial dediquei-me a rebentar e desinfectar as bolhas e descobrir os horários de autocarro para Manteigas no dia seguinte. Sacrificámos uns quilómetros caminhados pelo bem maior. A Serra “a sério” era o objectivo principal e eram precisos pés sãos para a trilhar.

Não me arrependi um segundo. O autocarro é uma experiência cultural em si. Se o descanso e recuperação não fossem razões suficientes (e eram), as gargalhadas dos velhotes com o condutor durante o trajecto e aquela familiaridade de lugar pequeno compensaram pela batota. 

Em Manteigas, entregámo-nos ao hedonismo gastronómico em vários tons de queijo da serra. Com vistas para o vale que acabámos por não percorrer, almocei o melhor bacalhau com broa a boiar no dito queijo, no Serradalto . À falta de pés, aproveitam-se os olhos e a boca. Estava feito o terceiro dia, com batota, mas o mesmo entusiasmo

(continua nos posts seguintes)

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