Quando Voltar é a Melhor Notícia

Viajar/regressar em tempos de Covid-19

Um mês e meio sem escrever e entretanto o mundo enlouqueceu. Ninguém diria, olhando para os picos nevados  dos Annapurnas, que metade do mundo está em quarentena. As fronteiras fecharam à nossa passagem (a sorte de dois dias) e a nossa viagem (minha e do Borja) passou de cinco para nem três meses, com regresso a um Portugal em estado de sítio. Mas antes um Portugal em estado de sítio que um Nepal ou uma Índia…acho. Neste momento não tenho certezas de nada.

Tenho tido medo, confesso. Nada paralisante e despoletado mais pela sinusite que me persegue há uma semana, com sintomas comuns ao corona. Mas tenho tido muitos momentos de “E se..” E se eu apanho? E se eu contamino alguém? E se algum dos meus adoece? E se todos? Prefiro ter esses “E se” em casa.

Isto por aqui está, aparentemente, tranquilo. Apenas um caso. Mas, e se só ainda não se começaram a ver sintomas e já anda por aí gente a contaminar? Não há infraestruturas para curar isto aqui. Não há sequer para o conter. É certo que o encerramento e controle de fronteiras já começou, e isso é bom prenúncio, mas os “E se” são demasiados.

Voltamos a casa desiludidos, mas convictos, em cinco dias.Tanta coisa pode mudar até lá que até tenho medo de o dizer alto. À velocidade a que as regras têm mudado não se sabe o amanhã.

***

Escrevi estas palavras quando chegámos a Pokhara a 16 de Março, depois de ter cancelado o voo para o fim de Maio e comprado outro para 21 de Março, para Lisboa. Nesse dia, passeámos vigiados pelos Annapurnas, mais ou menos tranquilos e pacificados com a decisão de parar por ali a viagem pela Índia e Nepal.

No dia seguinte Portugal decidiu fechar a entrada a quase todos os voos vindos de fora da Europa a partir de dia 19. Passámos o dia a tentar falar com a QatarAirways e com a embaixada. Da companhia continuavam a garantir que o voo sairia a 21, da embaixada diziam-nos que isso era impossível. Que era melhor arranjar um voo para Londres, que continuava a receber tudo e daí para Portugal.

A pesquisa de voos era inacreditável. Entre preços proibitivos e oferta de voos que claramente não iam poder acontecer, era o Vale Tudo. No balanço entre os gastos possíveis e a segurança comprámos um voo da Turkish para Londres, para o mesmo dia que tínhamos o da Qatar. Neste caso, mais valiam dois pássaros na mão a tentar cobrir todas as eventualidades.

Nessa noite, um tremor de terra fez-nos correr da cama à recepção do hotel. Não foi nada de extraordinário, os empregados até se riram, mas foi o suficiente para eliminar qualquer réstia de sensação de segurança. A juntar a isto, a minha sinusite deu em otite e sentia um aperto constante na boca do estômago à medida que os casos aumentavam em Itália, em Espanha, em Portugal.  Não dormi.

Queríamos aproveitar o que nos faltava de tempo alí e não conseguíamos. Entre ver as notícias, controlar a febre e a sensação de cansaço e ansiedade constantes, pouco mais fizemos que estar no hotel e sair a comer.

Quando o ouvido começou a dar sinais decidi ir ao médico. Depois do historial clínico detalhado, mediu-me a febre e fez oximetria de pulso ainda antes de espreitar pela orelha. Com tudo normal menos o fungo no ouvido, tranquilizei-me quanto à possibilidade de ter apanhado Corona. Essa noite descansei.

No dia 19 saímos optimistas no autocarro de volta a Kathmandu. Íamos apanhar o voo da Turkish no dia 21 e voltar a casa. Durou o tempo duma sesta. A meio da viagem de sete horas acordo com um email a avisar que o voo Istambul – Londres tinha sido cancelado. Entretanto, falava-se da possibilidade do Nepal fechar também a entrada e saída de voos e de que a Turquia proibiu a entrada a cidadãos espanhóis. Mesmo que, como era o caso do Borja, não só não vivessem em Espanha, como não estivessem por lá há meses, interessava o passaporte e nada mais.

Decidimos ir directos ao escritório da Qatar em Kathmandu ou ao aeroporto, se já estivesse fechado, para exigir que confirmassem que o voo para Lisboa já não ia acontecer e nos dessem alternativas. Com as mochilas connosco, dispostos a embarcar no momento se fosse preciso, esperámos num escritório cheio de turistas e Nepaleses a mudar/comprar/perguntar por voos alternativos. Ouvimos histórias de valores que não queríamos ter de pagar para sair dali, mas pagaríamos se a tal chegasse.

Com o coração na garganta ouvimos a menina que nos atendeu dizer que nos mudavam o voo para dia 24, que para esse dia continuava disponível para Lisboa. O de 21 já tinha sido cancelado. Tivemos de insistir que era impossível que o voo saísse a 24, pela mesma razão que o de 21 tinha sido cancelado. Que a embaixada nos tinha garantido que os voos não iam acontecer e aconselhado a voar para Londres.

Não vou perceber nunca como é que as companhias continuavam a vender voos para sítios que já se sabia não irem poder acontecer. Depois de algum tempo com esta discussão, lá mostraram disponibilidade para mudar o voo para Londres, para logo depois nos pedirem 1500 euros pela mudança. Aparentemente, só tinham autorização da companhia para fazer alterações sem custos para destinos até 500 milhas do destino final. Para Lisboa, isso significava Madrid ou o Atlântico. Madrid era meter-nos na boca do lobo do vírus, e dali já ninguém voava para Portugal.

Não sei se foi o nosso ar de desespero, se foi um acesso de lucidez e empatia da chefe da miúda que nos atendeu e não dava mais alternativas, mas logo a seguir disseram “Wait, we’ll see what we can do.” E nós esperámos, com o coração nas mãos (que iamos lavando). Acedemos a ir para o aeroporto nesse momento, acedemos a fazer as escalas que fosse preciso enquanto elas clicavam e clicavam no teclado ao mesmo tempo que resolviam problemas de outras pessoas.

Ao fim de quase uma hora, deram-nos a certeza de um voo para Londres, sem custos adicionais, no dia seguinte à noite. Chorámos, os dois, quando nos entregaram o bilhete. Restava saber se a situação não mudaria no dia seguinte, mas naquele momento aquela era a melhor notícia possível. Comprámos um voo de Londres para Faro, e sossegámos.

O dia seguinte foi passado a abastecer de álcool desinfectante para a viagem e sentados em restaurantes e cafés a ver as notícias atentamente. Às seis da tarde, mais um susto. Comunicado do presidente anuncia um lockdown total e cancelamento de todos os voos a entrar e sair do Nepal. As notícias iam chegando a conta-gotas e em nepalês. Tentamos descodificar com o Google Translate mas não conseguimos perceber as datas. O nosso voo era às 2 da manhã. Se o lockdown fosse efectivo a partir da meia noite, estávamos presos ali. Com as mãos a tremer pedimos para nos traduzirem a notícia no café. A data certa era dali a dois dias. Estávamos bem. Quase chorámos outra vez.

***

Num aeroporto só com quatro balcões de check-in abertos para um voo completamente cheio, manter a distância de segurança é impossível. Não conseguia evitar olhar em todas as direcções, virando a cara a cada tossidela de quem nos rodeava. Nunca tive tanta perceção da posição das minhas mãos e da vontade de as levar à cara. Nunca as lavei tantas vezes. Cinco, talvez mais, nas duas horas em que esperámos pelo embarque. 

No avião, desinfectei a mesa, ecrã, braços das cadeiras, tudo onde poderia tocar sem pensar e que já teria sido tocado por outros antes de mim. Encaixada entre o Borja e duas senhoras francesas de máscara, que também desinfectaram tudo freneticamente, consegui relaxar depois de tudo limpo e na ausência de tosses audíveis. Eram três da manhã e tínhamos descolado de Kathmandu. Faltavam duas etapas.

A escala em Doha foi de café, mais ou menos afastados de quem nos rodeava.O aeroporto estava muito mais vazio que de costume. Entre as seis e as oito da manhã perdi a conta ao número de vezes que lavei as mãos. Sei que já me doía a pele. O grau de ansiedade diminuira, mas só quando aterrássemos em Portugal é que poderia relaxar totalmente. Londres podia decidir fechar também, alguém poderia decidir que um Espanhol não podia entrar como aconteceu na Turquia, o avião poderia voltar para trás como aconteceu nas Canárias…tudo parecia possível, até o impossível.

E entretanto, a possibilidade de adoecer pelo caminho. As dúvidas sobre quem seriam todas as pessoas que nos rodeavam? Por onde teriam andado nos últimos 15 dias? Com quem tinham estado?

Chegados a Londres, tínhamos de passar a noite. Já tínhamos reservado hotel ao pé do aeroporto de saída para nos isolarmos o mais possível e diminuir a quantidade de contactos e mudámos-nos de autocarro de Heathrow para Gatwick. Pretendiamos jantar no restaurante do hotel, se estivesse suficientemente vazio, mas enquanto voávamos Boris Johnson decidiu começar a levar a pandemia (mais) a sério e encerrar todos os bares, cafés e restaurantes. Eram boas notícias para os ingleses, mas a sensação continuava a ser que o mundo ia fechando à nossa passagem. Valeu-nos um Costa Coffee com serviço exclusivo de take away para umas sandes e batatas fritas no quarto.

Apaguei às sete da tarde, depois de desinfectar maçanetas, interruptores e prateleiras e comer. Dormi ferrada até às 5, quando tocou o despertador. Estava de rastos.

O voo para Faro foi uma comédia. Éramos 9 passageiros, chamados quase pelo nome para o embarque.

A tripulação da British Airways foi do mais simpático e disponível que já apanhei no ar. Fomos todos em primeira classe, cada um na sua fila. “We’ll just have champagne for all” disse o exuberante chefe de cabina mal entrámos. Entre o alívio de ser o último passo para casa e o bizarro da situação, champanhe ao pequeno-almoço pareceu o mais apropriado. Ovos escalfados e brindes ao regresso, com insistência para repetições “Drinking in the morning is like eating standing up. Doesn’t count!” disse-me o senhor enquanto me piscava o olho, quando lhe disse que já chegava.

A chegada foi a um aeroporto vazio. Entregámos a folha que tínhamos preenchido no avião com os nossos dados e morada onde íamos ficar, no controle de passaportes. O agente do SEF não parecia saber bem o que fazer com ela, mas deu-nos a indicação de que deveríamos fazer quarentena por 15 dias. Não fez referência à nacionalidade do Borja. Demos o suspiro final depois de passar aquelas portas, juntos.

2 thoughts on “Quando Voltar é a Melhor Notícia

  1. Num ápice se passa do céu ao inferno, de uma viagem em águas calmas para uma tormenta perpetrada por um adamastor invisível!!! Um regresso desafiante, emocionante… parece ao jeito dos melhores thrillers. Depois deste 1º capitulo, fico a aguardar as histórias que iam alimentando com imagens através do instagram. Até lá, protejam-se.

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