As Gravuras Rupestres do Côa e o Poder da Cidadania

“Nós, Homo Sapiens, somos demasiado complexos para sermos demasiado simples”. Foi com máximas destas que António nos deixou tão deslumbrados como ele com as gravuras rupestres do Parque Arqueológico do Vale do Côa.

O António é guia do parque há 25 anos. Natural de Foz Côa e no final da adolescência quando se deu a luta pelo abandono da construção da barragem do Côa, suspeito que tenha feito parte desta luta também. Certo é que, através do seu trabalho de guia, luta pela educação, promoção e valorização deste património desde que o parque foi criado. E o amor que sente por este património único no mundo sente-se-lhe nas palavras.

As histórias que o Vale do Côa conta recuam a mais de 25 000 anos. “O Côa, no Paleolítico era o Serengueti da península ibérica. Mas em vez de estarem os crocodilos à espera dos animais, estavam estes tipos com umas lanças.”

Geograficamente, esta zona faz parte da meseta ibérica, que continua Espanha adentro num planalto árido. A falha tectónica da Vilariça e a erosão do Douro e afluentes foram os responsáveis pela criação dos montes e vales desta região, que por sua vez geraram micro-climas que atraíam os animais nas suas migrações. A maior quantidade de água e alimento criavam então boas zonas para os acampamentos do homem do Paleolítico. Os tais tipos com uma lanças.

Foram também os acidentes geológicos que levaram à formação das paredes verticais de xisto, responsáveis pela manutenção das gravuras até hoje. Numa superfície horizontal o efeito da erosão seria muito mais danoso.

Até à descoberta das gravuras do Côa a arte paleolítica era considerada a “arte das grutas”. A arte ao ar livre era practicamente desconhecida. O Côa foi um achado. Mudou conceitos e certezas estabelecidas até então. Depois desta descoberta começaram a encontrar-se outros lugares ao ar livre, que passavam despercebidos antes, porque não se imaginava a possibilidade da sua existência. Que este património, o maior conjunto mundial de arte paleolítica ao ar livre, estivesse para ser “afogado” é algo que não deixa de me espantar.

Em terra e no rio, de noite e de dia

Tive o privilégio de, a convite da Fundação Côa Parque, fazer visitas guiadas a vários dos sítios arqueológicos, ao museu e fazer ainda um passeio de caiaque pelo rio Côa, até ao Fariseu, onde foi descoberta recentemente uma gravação de um auroque com 3,5 metros. Foram dois dias cheios de deslumbre e aprendizagem que não me canso de recomendar. 

As teorias sobre as razões de ser das gravuras dividem os arqueólogos e foram o mote para a máxima do António com que iniciei este texto. Logo na primeira visita e ao longo dos dois dias foi-nos reforçando esta ideia de que não existe uma explicação única e correcta para a arte paleolítica. Existem, é verdade, vários elemento comuns em painéis distintos, mas saber com certeza, “só com uma máquina do tempo”. Serão marcações de lugares de caça? Representações para rituais xamânicos?  Demarcações de vontades, expressões de força ou apenas a vontade de desenhar? Talvez sejam todas verdade. 

É-me muito difícil recomendar uma das visitas em detrimento das outras. Para mim, todas se complementaram e acrescentaram camadas de conhecimento.

O sítio da Ribeira de Piscos foi o primeiro que visitámos e um dos meus preferidos. Faz-se uma caminhada por um trilho lindíssimo e pode ver-se o “Homem de Piscos”, uma importante representação antropomórfica paleolítica e várias figuras que, pelo traçado, denotam movimento. Esta representação de cenas – figuras em movimento ou com representações dos lugares – é uma das características do Côa. “Normalmente estão suspensas no espaço em lugar nenhum, a fazer nenhum. Aqui, não.”

O Museu do Côa impressiona logo ao longe pela localização. “Pendurado” no monte, onde o Côa termina no Douro, dá vistas para os dois vales enquanto ao mesmo tempo se esconde e se revela.

O bloco de cimento que é, não o parece, imbuído que está em pigmentos que mimetizam o xisto circundante.

A fenda que faz de entrada cumpre o objectivo dos arquitectos de nos trazer suavemente da luz para o negro que caracteriza as salas do museu (e permite observar melhor a exposição). Valia a visita só para ver o edifício, mas vale ainda mais para perceber e integrar toda a história do parque, do Paleolítico até aos tempos modernos.

Noutra das suas tiradas geniais, António chamou ao sítio da Penascosa a “Fátima dos sítios”. Por estar mais acessível, ter mais figuras e várias sobreposições com mais relevo, o que as torna mais fáceis de ver. Tem um efeito inicial mais surpreendente, um ar mais monumental.

Fizemos esta visita durante a noite. A incidência da luz influencia de maneira determinante a visualização das gravuras. As visitas aos diferentes sítios estão programadas para alturas do dia em que esta incidência é óptima e à noite, com luz artificial, conseguimos perceber melhor este efeito.

Sentados na pedra, enquanto a rãs coaxavam a plenos pulmões e as estrelas iam aparecendo, vimos, como se de um passe de magia se tratasse, as figuras a aparecer e desaparecer enquanto se mudava a incidência da lanterna de luz a rasar a pedra para luz a incidir directamente. Fazer esta visita à noite também nos vira toda a atenção para os painéis e os detalhes, não se dispersando na paisagem.

O passeio em caiaque faz o oposto. Coloca-nos no meio do rio, no centro da paisagem, de frente para paredes de xisto que foram telas dos humanos e são habitat das aves. Não consigo recomendar uma visita em particular, mas para mim, esta foi a mais especial. Remar pelo Côa acompanhados por uma cegonha negra que ali tem o seu ninho, ver as gravuras desde a água, perceber quantas já estão afundadas e todas as que estariam, ver as águias reais sobrevoarem-nos de escarpa em escarpa e deixar-nos levar embalados pelo silêncio ruidoso da natureza, conquistou-me.

Tivemos também a sorte de apanhar o Thierry Aubry, arqueólogo do parque, no Fariseu. Explicou-nos que esta escavação vai permitir datar melhor as gravuras, associando os sedimentos e o material arqueológico encontrado. E que é um lugar onde se pode mostrar o contexto geológico, arqueológico e as gravuras, tudo no mesmo sítio e onde foram feitas originalmente.

Há uma ideia quase mística, muito especial para os arqueólogos, de estar a ver pela primeira vez gravuras que não eram vistas há mais de 15 000 anos. Arrisco a dizer que não só para os arqueólogos.

Ao fim dos dois dias, saí do museu do Côa com a cabeça cheia de história e uma admiração renovada pelo impulso criativo da humanidade e pela sua capacidade de mobilização. Durante estes dias discutimos a importância da educação para criar imaginário nas pessoas, para que considerem este património como seu. Esse objectivo foi cumprido com distinção e acrescentou-me vários graus de maravilhamento com esta região.

“As gravuras não sabem nadar”

Foi em 1994 que o arqueólogo Nelson Rebanda, que acompanhava a construção da barragem do Côa, revelou que tinha identificado uma rocha gravada. A descoberta provocou logo grande discussão já que a subida do nível do rio causaria a submersão da arte rupestre do Vale do Côa. Em 1995, Foz Côa passou a estar nas bocas do mundo pela dimensão cívica que tomou a luta por travar a finalização da construção da barragem, para salvar as gravuras. Começou um braço de ferro entre arqueólogos, políticos, a EDP e a população de Foz Côa que se dividia no apoio à barragem e no apoio ao património cultural. Foi também um embate geracional. 

Os estudantes da escola secundária de Foz Côa, apoiados pelo presidente do conselho directivo, puseram em marcha a campanha que viria a salvar as gravuras. Os mais velhos, viam a barragem como símbolo de desenvolvimento, de valorização dos terrenos e das rendas.

A mobilização dos estudantes em 1995 teve várias frentes. Fizeram cartazes, manifestações, abaixo-assinados. Conseguiram o apoio do presidente da república, Mário Soares. Três mil estudantes de todo o país acamparam na escola secundária e fizeram um cordão humano na zona da barragem, a gritar, por cima do barulho das retroescavadoras, “as gravuras não sabem nadar, yo!”, slogan que foram buscar à música dos Black Company. Os meios de comunicação não saíam de Foz Côa. E ainda assim, a barragem avançava.

O IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico) pediu a suspensão da obra, mas a EDP prosseguiu com os trabalhos, enquanto contratava uma série de especialistas internacionais para tentar contestar a antiguidade das gravuras e ia propondo formas – todas elas rejeitadas pelos arqueólogos – de as compatibilizar com a barragem: removê-las, criar réplicas e fazer um parque temático, até mesmo criar um submergível para visitas subaquáticas.O governo de Cavaco Silva não tomou posições e foi deixando que a obra continuasse.

Foi uma promessa eleitoral que soltou o salva-vidas. António Guterres, candidato pelo PS nas legislativas, assumiu a necessidade de preservar as gravuras. Quando o seu governo tomou posse, cumpriu a promessa – contra todas as expectativas – e ordenou a suspensão da barragem. Em 1996 criou o Parque Arqueológico do Vale do Côa e em 1998, no processo de classificação mais rápido de sempre, o núcleo de gravuras foi classificado como Património Mundial pela Unesco.

A força e rapidez desse processo esbarraram depois com anos de gestão difícil, falta de fundos e apoio ao desenvolvimento do projecto e crises sucessivas, principalmente entre 2011 e 2018. Foi este desinvestimento (e a falta de civismo) que permitiu a vandalização numa das gravuras do lugar da Ribeira de Piscos. Com a falta de dinheiro reduziu-se o pessoal e deixou de haver vigilância dos sítios arqueológicos. Um grupo de pessoas gravou uma bicicleta e a palavra BIKE diretamente sobre um conhecido conjunto de sobreposições de gravuras do paleolítico, onde está o famoso ‘Homem de Piscos’, a mais notável representação antropomórfica paleolítica identificada no Vale do Côa.

António, que está desde o início, diz que foram anos muito difíceis, em que quem ficou foi mesmo por carolice e amor ao lugar. 

Visitando o museu e os sítios arqueológicos agora, mesmo após dois meses de encerramento por causa do confinamento causado pela pandemia, parece-me que as apostas feitas nos últimos anos foram bem ganhas. Nota-se dinamismo e uma procura de actividades que estimulem a vontade de conhecer melhor este património único no mundo e que nos devia orgulhar a todos. Pela sua dimensão e importância. Pela janela que abre sobre a vida dos nossos antepassados e a (possível) ancestralidade do impulso criador humano.


Realizei estas visitas a convite da Fundação Côa Parque, no âmbito da iniciativa #euficoemportugal da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, mas podem ser realizadas por qualquer pessoa, mediante marcação. Toda a informação nesta página do site do museu .

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