Lições de Cuba

“O problema quando viajas muito é que deixas de te maravilhar com as coisas. Começo a ter a sensação que já vi estas vistas noutro lugar. Sinto-me desencantado”, disse-me o Johannes, enquanto bebíamos mojitos, em Viñales. Eu discordei. “A beleza para mim, é que não sinto nada disso. Não deixo de me surpreender com a gratidão que experiencio ao estar em sítios novos. Mesmo se, sim, às vezes as vistas são parecidas a outras, nunca é exatamente o mesmo. A minha disposição é diferente, as pessoas com quem estou são diferentes, ou estou sozinha e é diferente. A maneira de chegar aos sítios também influencia”.

Esta conversa aconteceu depois de termos concluído que Cuba não era o que nenhum de nós tinha imaginado. Eu estava no fim da minha viagem, a dele estava a começar. Tínhamo-nos juntado no hostel em Havana, para vir até aqui, porque eu já sabia onde conseguir os verdadeiros táxis colectivos e não os dos turistas. Acabámos por partilhar um quarto e o nosso tempo no vale. Eu já tinha chegado à mesma conclusão com várias outras pessoas. Viajar em Cuba fora dos pacotes organizados de autocarro e resort era difícil e caro.

Tínhamos de regatear os preços de tudo, a toda a hora. Tínhamos de perguntar a dez pessoas diferentes pelos autocarros comuns, não os dos turistas, e mesmo assim, éramos enganados a maior parte das vezes, ou não conseguíamos respostas, porque alguém tinha sempre um amigo com um táxi. Tínhamos de lutar com os taxistas pelo preço certo, mesmo depois de já ter acordado previamente um preço que já sabíamos inflacionado. Como mulheres, tínhamos que lidar com o assédio constante dos homens cubanos. Com os olhares, os assobios, as chamadas. Com seguirem-nos pela rua a perguntar se queríamos uma cerveja, uma aula de salsa, um beijo. A convidar-nos para dançar salsa nos clubes e, acto contínuo, perguntarem-nos se tínhamos namorado e se queríamos um cubano.

Depois da minha primeira semana em Cuba, estava arrependida de ter decidido vir três. Mas quando acabaram as três semanas, já não tinha a certeza desse arrependimento. Sim, tinha sido duro. Sim, tinha tido mais mudanças de humor nessas três semanas do que alguma outra vez nas minhas viagens. Sim, não achava que quisesse voltar. Sim, com excepção dos carros clássicos, não houve nada em Cuba que não tivesse já visto noutros países latino-americanos, e tinha-me sentido muito mais bem-vinda nos outros. Mas, talvez essa dureza tivesse trazido qualquer coisa boa com ela. Forçou-me a ser mais dura, mas também a confiar mais.

Ao segundo dia em Havana, saí para Trinidad mais cedo que o planeado, com quatro outros viajantes. Estávamos no mesmo hostel (o único do país) e fomos aconselhados por outro viajante, que terminava 2 semanas de viagem, que fazê-lo em grupo tornava tudo mais simples e mais barato. Então, conhecendo-nos há menos de 24 horas, a Kate, o Stephan, o Shane, o Matt e eu passámos os cinco dias seguintes juntos, a regatear tudo em conjunto e a rir. 

Como ia ficar no país mais tempo, separei-me deles em Cienfuegos e segui para Santiago, sozinha. Foi difícil e muito caro. Senti-me miserável, empoderada, miserável outra vez, sozinha, forte, impaciente, intolerante, forte de novo. A determinada altura, quase considerei ir para um resort e não pensar em mais nada. Mas decidi ir antes para Holguin. Lá, conheci a Maria, a primeira cubana com quem me consegui realmente conectar, e conhecê-la mudou tudo. Saí para Havana e de lá para Viñales com a energia e a tolerância renovadas e continuei a conhecer e viajar com pessoas que suavizaram o caos.

Nessas três semanas partilhei quartos, camas e boleias com pessoas que mal conhecia. Chorei, ri, conversei sobre sentimentos e histórias passadas com uma abertura e um carinho apenas comuns em velhos amigos. Andei a cavalo, dancei numa discoteca dentro de uma caverna, cantei em táxis clássicos, nadei em água turquesa, fumei charutos e bebi mais rum do que consigo contar. Sentei-me numa cozinha durante horas, a beber café e a conversar, conseguindo um vislumbre da sociedade cubana e uma recarga de amor, humildade e compreensão. Fiz escalada, relaxei em grutas, tentei salvar um gatinho doente e fiz slackline entre palmeiras. Partilhei uma rede e muitas palavras, de frente para o mar das caraíbas. Fiz caminhadas sozinha, deixando a paz da natureza limpar toda a confusão.

Cuba, através das dificuldades, abriu-me a ligações mais rápidas com outras pessoas, chamou-me à atenção para o meu próprio ego e fez-me pô-lo de lado. Ensinou-me paciência e resiliência. Ensinou-me a ultrapassar a timidez. Ensinou-me a manter a minha posição com um sorriso, em vez de um franzir do sobrolho. Ensinou-me que não preciso que alguém seja simpático para mim, para ser simpática para os outros e que a gentileza realmente gera gentileza.

Cuba foi dura, mas eu fui mais forte. Não vim deslumbrada com o país, não sei se quero voltar e ainda tenho alguma dificuldade em explicar o que sinto. Mas não me arrependo de ter ido. As histórias e as pessoas fizeram valer tudo.

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