Histórias de Voluntariado: Argentina e os primeiros dias

Ando a escrever um livro sobre as minhas experiências de voluntariado pelo mundo. Muito mais lentamente que devia, mas fecho este ano com a determinação de o terminar no próximo. Serão textos soltos, semi-independentes, mas organizados cronologicamente. Serão as reflexões, conversas, pessoas, lugares, sentimentos, contradições e aprendizagens que fui reunindo na última década e que, espero, transmitam um pouco do se vive e sente fazendo voluntariado internacional, em várias das suas vertentes.

Então, porque queria dar esta novidade, e porque é isso que tenho andado a escrever, deixo-vos um pequeno texto. O primeiro teaser. Este, foi o meu primeiro dia, da primeira vez que viajei para ir fazer voluntariado, na Argentina. E é uma boa amostra da montanha-russa de emoções que caracterizou essa experiência:

Estava sentada a uma mesa em frente ao Ariel, o secretário da Projects Abroad. A Celia e a Carole estavam ao meu lado. Ao contrário de mim, elas tinham sido recebidas pelas suas famílias de acolhimento na noite anterior. Ao contrário de mim, elas já tinham conhecido o sítio onde iam viver os três meses seguintes, já tinham partilhado uma refeição. Boa ou má, já tinham tido a oportunidade de estabelecer a sua primeira impressão, falar com as pessoas com quem iam partilhar a sua vida. Eu ainda estava num limbo. Eu dormira sozinha num quarto de hotel que cheirava a mofo, sem janelas, e comera uma pizza terrível na cama. Estava a tentar manter uma atitude positiva, enquanto o Ariel me explicava que estavam a tentar contactar a Maria, a minha suposta anfitriã, e que se não conseguissem me iam arranjar outra família de acolhimento. Era a primeira vez que ela ia acolher voluntários e não sabiam o que tinha acontecido a noite passada, para não estar em casa quando eu cheguei.

Acenei que sim, apesar de estar a lutar internamente. Todas estas mudanças mexiam com as minhas expectativas. Uns meses antes, quando soubera que ia ficar com uma senhora de 60 anos e o seu cão e não uma família mais numerosa, ajustara o que tinha imaginado ser ficar com uma família de acolhimento local. Agora, talvez não fosse ficar com ela, mas noutro sítio qualquer, sem fazer a mínima ideia do que esperar. Tentei convencer-me “ Estás aqui para experienciar tudo. Não sejas esquisita. Há uma razão para tudo, deixa fluir”, mas não podia negar o peso que sentia.

Estávamos de costas para a porta, por isso ouvi-a antes de a ver. Uma voz aguda, mas rouca entrava pelo escritório, queixando-se que estava à espera que alguém chegasse a noite passada e não tinha aparecido ninguém. Olhei para trás no momento em que a encaminhavam rapidamente para o andar de cima, para o gabinete do director da agência. Vi uma mulher baixa, de calças de ganga e cabelo cor de laranja a gesticular e falar sem parar. O Ariel sorriu um sorriso embaraçado e continuou a tirar fotocópias dos nossos passaportes e a explicar qualquer coisa sobre os transportes públicos.

Quando estávamos prestes a sair para o resto do nosso dia de apresentação à cidade, Maria desceu com o director. Explicaram-me que a campainha da sua porta estava avariada e que eles apenas tinham o telefone de casa, que também não funcionava. Maria garantia que lhes tinha dado o telemóvel, eles garantiam que não e eu não sabia o que pensar de tudo. Naquele momento, eu ainda não sabia que ia amar esta mulher como uma melhor amiga. Não sabia que, apesar de ser completamente aluada, ela é gentil, preocupada e carinhosa. Não fazia ideia como vou sentir falta das nossas conversas à mesa da cozinha, do seu entusiasmo pela minha vida…pela vida no geral. Naquela altura ainda não tinha noção que teria perdido muito do que tornou a minha estadia na Argentina tão especial, se tivesse escolhido não ficar com ela. Por isso, naquele momento, estava confusa com toda a situação. Perguntei-me se realmente tinha sido só um acaso infeliz. Se a culpa era da agência, por não garantir que estava tudo em ordem antes de eu chegar, se era ela que realmente se estava borrifando para aquilo ou se era um sinal que devia ficar noutro sítio qualquer.

Decidimos experimentar. Maria desapareceu com a minha mala e nós apanhámos um autocarro com a Sofia, a coordenadora de voluntários, para continuar com a introdução à cidade.

O dia correu sem problemas. Trocámos dinheiro, comprámos cartões SIM argentinos para os telemóveis, almoçámos e ficámos a conhecer-nos todas um pouco melhor. Entre descobrir como me movimentar por Córdoba, saber que a Carole era uma quase médica americana, a Celia meio suiça meio das Seicheles (e não se sentia de nenhum dos sítios) e a Sofia fã acérrima dos Red Hot Chilly Peppers, quase me esqueci da confusão da noite anterior e que ainda não conhecia a casa onde ia ficar.

Entre o almoço e os tempos intermináveis dos autocarros, do escritório em Villa Allende até ao centro de Córdoba e de volta a Villa Allende, onde eram a minha casa e a da Célia, fizemos planos para nos encontrarmos para um café e ir espreitar a loja de tatuagens que a Sofia nos recomendara.

Ainda não sabiamos o quão próximas nos iamos tornar nesses três meses. Descobriremos esta cidade e muitas outras, juntas. Cada uma de nós tão diferente das outras duas, mas sempre respeitadoras do espaço e vontades umas das outras. Vamos aproximar-nos, afastar-nos em busca de outras pessoas e experiências, apenas para nos tornarmos ainda mais amigas quando estivermos para partir para pontos opostos do mundo. E depois disso, ao longo dos anos, vamos conseguir manter o contacto e encontrar-nos em vários países diferentes.

Mas naquele momento, acabáramos de nos conhecer. E enquanto a tarde chegava ao fim e o autocarro se aproximava de Villa Allende, não me sentia confortável a partilhar o frio de ansiedade que me apertava o estômago. Despedimo-nos da Celia e caminhámos para a casa onde ia ficar. Disse à Sofia que estava tudo bem. Queria ser uma pessoa forte, alguém que não se importava onde ia dormir ou com quem ia ficar. Alguém que é flexível, resiliente, adaptável a qualquer circunstância. Alguém que não é tão mimado ao ponto de pensar “A casa da Carole está bem melhor localizada. Está mesmo no centro…isto é tão longe de tudo” enquanto subia a colina a arfar e entrávamos no bairro do golf, onde mora a Maria.

Fiz aqueles 30 minutos de caminho quatro vezes ao dia, quase todos os dias durante 3 meses. Amei-os, amaldiçoei-os, suei-os e tiritei-os ao frio. Fiquei ensopada e assustada mais do que uma vez. No entanto, não me arrependi nunca de ter ficado ali. Olhei para aqueles quilómetros como o preço a pagar por me sentir tão bem naquela casa que, nesse primeiro dia, ainda me causava tantas dúvidas. Por ali, apanhei boleias, parei  a ver os mochos, estaquei de frente a um guaxinim e ouvi todos os oito gigas de música do meu leitor de mp3, vezes sem fim. Aprendi a apreciar o caminho ao fim da tarde e ver o céu a ficar violeta sobre o verde do campo de golf, as árvores a tornarem-se silhuetas negras com o desaparecer do sol.

À primeira vista a casa é espectacular. Tem um relvado enorme a toda a volta, um grande alpendre nas traseiras e Negra, a cadela, fez-me uma festa à chegada. Mas à medida que a Maria nos mostrava tudo, comecei a notar as fendas nas paredes, as teias de aranha na sala de estar, que parecia desabitada e suja. Quando abriu a porta para o que ela achava que ia ser o meu quarto, apertou-se-me o coração. Queria desesperadamente ser compreensiva, mas aquilo era um buraco na parede. 

A minha cara deve ter mostrado o que sentia porque ela disse imediatamente “Achei que ias gostar mais deste, porque está mais isolado, é mais fresco e tem a casa de banho mesmo à porta. Eu própria até durmo aqui às vezes, quando está calor. Mas deixa-me mostrar o outro quarto. Está ao lado do meu e tem duas camas.” O outro quarto desatou-me um sorriso. Era grande, com uma janela para o jardim. Era um quarto a sério. Pensei “E pensaste tu em ir para África…maricas!”. No decurso daquele ano tornei-me mais tolerante e resiliente no que toca a camas, casas de banhos e condições sanitárias no geral. Naquele instante, era ainda uma menina mimada.

Acompanhei a Sofia à porta. Decidimos que ia experimentar ficar. Ver se a distância à paragem de autocarro não era demasiada para todos os dias e se me sentia bem. Se quisesse, poderia mudar para outra casa daí a uns dias.

Quando ficámos sozinhas, sentei-me com a Maria na mesa da cozinha. Esta era, e será até ao fim, a minha parte favorita da casa. É grande e tem uma mesa num recanto rodeado de janelas, com árvores do lado de fora. Toda a actividade da casa passa por aqui e é por isso que a sala parece desabitada. É aqui que Maria come, bebe, estuda, lê e faz trabalhos manuais. É aqui que iremos estar horas a falar sobre os nossos passados, sobre a minha família e amigos em Portugal, sobre todas as mudanças que vou fazer na minha vida, e ainda não sabia.

Se eu soubesse que as conversas iriam fluir tão facilmente no futuro, não me teria sentido tão incomodada por ter tanta dificuldade em perceber o que ela me dizia nesse momento. Eram demasiadas expressões que não conhecia e a velocidade a que debitava palavras e mudava de assunto estava a dar-me dor de cabeça. De repente, levantou-se de um salto e foi buscar uma sobremesa ao frigorífico. Contou-me que a tinham preparado para me receber na noite anterior. Percebi que estava tão nervosa como eu e relaxei. Ainda assim, parecia-me um pouco louca.

Conversámos mais uns minutos e fui para o quarto instalar-me. Abri o malão que levei e fiquei a olhar para tudo uns bons vinte minutos. Tirei só o que ia precisar naquele dia. Ainda não sabia o que sentir sobre esta estadia e sentia-me péssima por isso.

À noite, adormeci a ouvir as cigarras. A minha mente não parou um segundo, mas o meu corpo estava demasiado cansado dos últimos dois dias e acabou por ganhar a batalha.

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